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Biografias

Biografias:

Adelheid Koch

Adelheid Koch


KOCH, Adelheid Lucy (1896 – 1980)

Psiquiatra e psicanalista naturalizada brasileira. Nasceu em Berlim – Alemanha. Primeira psicanalista com formação reconhecida pela International Psychoanalytical Association – IPA a atuar na América Latina e a exercer a análise didática. Foi a analista didata pioneira do grupo organizado por Durval Marcondes que, em 1951, se tornaria a primeira sociedade psicanalítica latino-americana reconhecida pela IPA: a Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo – SBPSP. Sua participação foi fundamental para a obtenção desse reconhecimento oficial.

As transformações econômicas, sociais e políticas das primeiras décadas do século XX, particularmente aceleradas em São Paulo, incitaram as angústias e tensões inerentes à instabilidade social. Mobilizaram o desejo de modernidade e a confiança no desenvolvimento científico e tecnológico, como expediente para a resolução de problemas humanos. Nesse contexto histórico, o trabalho de alguns entusiastas do recém-desenvolvido conhecimento psicanalítico encontrará possibilidade de expansão, apesar da oposição dos adeptos das teorias organicistas, então dominantes na Psiquiatria. Durval Marcondes será o mais importante desses primeiros psicanalistas. Empenhado no desenvolvimento da Psicanálise no Brasil, conhecia o procedimento oficial de formação de psicanalistas empregado pela IPA: análise didática, supervisão de casos clínicos e realização de cursos técnico-teóricos. Com a intensificação do nazismo e a “arianização” das instituições médicas alemãs, iniciou-se o êxodo de psicanalistas judeus. Nessas circunstâncias, os entendimentos entre Marcondes e Ernest Jones, então presidente da IPA, possibilitaram a vinda, para o Brasil, de Adelheid Koch, autorizada a exercer a função de didata e a formar os primeiros psicanalistas brasileiros.

Judia, Adelheid formara-se psicanalista no Instituto de Berlim. Em julho de 1937, iniciou o trabalho psicanalítico no consultório emprestado por Marcondes, que também arregimentou, no serviço de saúde mental, o primeiro grupo de candidatos a analistas: o próprio Marcondes, Darcy de Mendonça Uchôa, Flávio Dias e Virgínia Bicudo. Dos quatro, apenas os três primeiros eram médicos. Assim, surgia o germe da futura SBPSP, já coerente com as concepções de FREUD (1987), que rejeitava a exigência de formação médica como pré-requisito para a formação psicanalítica. Em seguida, a SBPSP pôde manter-se aberta à formação de profissionais de outras categorias, entre os quais os psicólogos. Nos momentos iniciais do grupo que viria a constituir a SBPSP, e também posteriormente, a atividade de Adelheid foi fundamental, ao receber em formação inúmeros psicanalistas importantes de São Paulo. Além de sua contribuição na formação de analistas, Adelheid ajudou Marcondes e os outros membros do grupo a conquistar credibilidade científica para a Psicanálise, através da divulgação do conhecimento psicanalítico junto aos meios acadêmicos e à sociedade leiga, como nos lembra SAGAWA (1994). O esforço de introdução da Psicanálise no Brasil, a despeito dos méritos do grupo que o empreendeu, suscita uma reflexão sobre a dependência do campo psicanalítico brasileiro da legitimação pelos centros dos países economicamente mais desenvolvidos. Porém, esse é apenas mais um caso a ser considerado, no âmbito da questão da condição de dependência da produção brasileira de conhecimento.

Fontes:

BRUNO, Cássia Aparecida Nuevo Barreto. Psicanálise e movimento estético. In: NOSEK, Leopold (Org.). Álbum de família: imagens, fontes e idéias da psicanálise em São Paulo. São Paulo: Casa do Psicólogo, 1994.

FREUD, Sigmund. A questão da análise leiga. In: ______. Obras psicológicas completas. 2. ed. Rio de Janeiro: Imago, 1987. v. 20. Título Original: Die Frage der Laienanalyse.

LOBO, Reinaldo. As mudanças históricas e a chegada da psicanálise ao Brasil. In: NOSEK, Leopold (Org.). Álbum de família: imagens, fontes e idéias da psicanálise em São Paulo. São Paulo: Casa do Psicólogo, 1994.

MONTAGNA, Plínio. Psicanálise e psiquiatria, São Paulo. In: NOSEK, Leopold (Org.). Álbum de família: imagens, fontes e idéias da psicanálise em São Paulo. São Paulo: Casa do Psicólogo, 1994.

NOSEK, Leopold (Org.). Álbum de família: imagens, fontes e idéias da psicanálise em São Paulo. São Paulo: Casa do Psicólogo, 1994.

OLIVEIRA, Carmen Lúcia Montechi Valladares de. A implantação do movimento psicanalítico na cidade de São Paulo. 2000. Texto debatido em um dos grupos dos Estados Gerais da Psicanálise. Disponível em: <http://www.geocities.com/HotSprings/Villa/3170/CarmenLuciaValadares.htm>. Acesso em: fev. 2001.

ROUDINESCO, Elisabeth, PLON, Michel (Org.). Dicionário de psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998. Título Original: Dictionnaire de la Psychanalyse.

SAGAWA, Roberto Yutaka. A história da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo. In: NOSEK, Leopold (Org.). Álbum de família: imagens, fontes e idéias da psicanálise em São Paulo. São Paulo: Casa do Psicólogo, 1994.

SAGAWA, Roberto Yutaka. A psicanálise pioneira e os pioneiros da psicanálise em São Paulo. In: FIGUEIRA, Sérvulo A. (Org.). Cultura da psicanálise. São Paulo: Brasiliense, 1985.

SAGAWA, Roberto Yutaka. Os inconscientes no divã da história. 1989. Dissertação (Mestrado) – Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Estadual de Campinas, Campinas.

SAGAWA, Roberto Yutaka. Redescobrir as psicanálises. São Paulo: Lemos, 1992.

Raul Albino Pacheco Filho

Fonte: Dicionário biográfico da psicologia no Brasil: Pioneiros / Autor(a): Regina Helena de Freitas Campos (org.) Imago Editora – Rio de Janeiro – 2001 – 461 p.

Albert Bandura
Anísio Teixeira

Anísio Teixeira


TEIXEIRA, Anísio Spinola (1900 – 1971)

Nasceu em Catité – Bahia. Em 1922, concluiu, no Rio de Janeiro, o curso de Ciências Jurídicas e Sociais. Em 1924, a convite do presidente baiano Francisco de Góes Calmon, tornou-se inspetor geral de ensino na Bahia. Durante esse período, realizou viagens de estudos à Europa e aos Estados Unidos. Em 1928, deixou o cargo e retornou aos Estados Unidos, obtendo o título de Master of Arts do Teacher’s College da Universidade de Colúmbia.

Nos anos 30, incentivou o nascimento dos Institutos de Educação. Na década seguinte, criou o Centro Educacional Carneiro Ribeiro – Escola Parque, primeira escola pública de tempo integral com oficinas de trabalho, reproduzida, nos anos 60, em Brasília. Em 1946, entre Londres e Paris, assumiu uma cadeira de Conselheiro da Educação Superior na Unesco e foi colaborador da Associação Brasileira de Psicologia Aplicada no ano de sua fundação, 1949. Nos anos 50, assumiu a Secretaria da Campanha Nacional de Aperfeiçoamento de Pessoal do Ensino Superior – Capes e a direção do Instituto Nacional de Estudos Pedagógicos – INEP, investindo pesadamente na formação de professores. Em 1955, a Escola Guatemala – Bairro de Fátima, em convênio com o então Distrito Federal e o INEP, passou a viver todo um processo de aperfeiçoamento do professor na sua visão global – pedagógica e psicológica -, tendo criado, no seu plano-piloto, o primeiro gabinete de Psicologia, cujo objetivo era acompanhar o professor no seu desenvolvimento pleno. Constituiu o primeiro Serviço de Psicologia Escolar no Brasil. Foi campo de estágio para alunos de Psicologia Escolar das universidades após a criação dos cursos de Psicologia. O Gabinete de Psicologia passou a ser designado Serviço de Orientação Psicopedagógica – SOPP, referência na formação do psicólogo em sua prática escolar, reunindo a vivência teórica à prática. De 1955 a 1967, o SOPP estruturou a sua equipe: psicólogo, assistente social e médico. O acompanhamento psicológico à professora foi a tônica da equipe interdisciplinar responsável pela ação psicológica e pedagógica no contexto escolar.

Em 1962 foi nomeado membro do Conselho Federal de Educação, tornando-se no ano seguinte presidente da Comissão Nacional de Ensino Primário. Em 1963 assumiu interinamente a Reitoria da Universidade de Brasília. Nesse mesmo ano, recebeu a medalha de mérito do Teacher’s College da Universidade de Colúmbia. Ainda nessa década, lecionou por dois anos como professor residente na Universidade Colúmbia e da Califórnia. Retornou ao Brasil em 1966, tornando-se consultor jurídico da Fundação Getúlio Vargas. Em 1970, a Universidade Federal do Rio de Janeiro concedeu-lhe o título de Professor Emérito. Faleceu no Rio de Janeiro – RJ.

Fontes:

BELOCH, Israel; ABREU, Alzira Alves de (Coord.). Dicionário histórico-biográfico brasileiro 1930-1983. Rio de Janeiro: Forense/ Finep, 1984. 4 v.

BRASIL. Ministério da Ciência e Tecnologia. Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico – CNPq. Programa Prossiga. Biblioteca virtual Anísio Teixeira. Disponível em: <http://www.prossiga.br/anisioteixeira/index.html>. Acesso em: jan. 2001.

Fundação Getúlio Vargas. CPDOC. Arquivo Anísio Teixeira.

LAGÔA, Ana. A utopia da educação pública: uma pedagogia na medida para as necessidades do Brasil no século XXI. Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 22 de jul. 2.000. Seção Idéias.

NUNES, Clarice. Anísio Teixeira: a poesia da ação. 1991. v. 1. Tese (Doutorado) – Departamento de Educação, Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro.

Therezinha Lins de Albuquerque

Fonte: Dicionário biográfico da psicologia no Brasil: Pioneiros / Autor(a): Regina Helena de Freitas Campos (org.) Imago Editora – Rio de Janeiro – 2001 – 461 p.

Annita de Castilho e Marcondes Cabral

Annita de Castilho e Marcondes Cabral


CABRAL, Annita de Castilho e Marcondes (1911 – 1991)

Nasceu em 11 de julho de 1911 na cidade de Novo Horizonte, interior de São Paulo. Aos seis anos de idade, aproximadamente, foi morar na capital onde iniciou os seus estudos. Em meados da década de 1920, fez o curso normal no Instituto de Educação Caetano de Campos, onde foi aluna de Manuel B. Lourenço Filho. Já professora normalista, trabalhou com Noemy Silveira Rudolfer no Instituto de Psicologia Aplicada. Entre 1931 a 1932, realizou o Curso de Aperfeiçoamento Pedagógico, dirigido por Lourenço Filho, onde teve aulas com Jean Maugué e Noemy Silveira Rudolfer.

Em 1932, foi nomeada professora da escola mista do bairro de Santo Antonio em São Roque, cargo que ocupou apenas nominalmente, haja vista a sua nomeação para o Serviço de Psicologia Aplicada, posteriormente, transformado em Laboratório de Psicologia Educacional do Instituto de Educação da USP. Sabe-se que a ocupação de cargo de professor secundarista era uma estratégia usada por aqueles que desejavam ingressar na carreira universitária, como vemos na trajetória de outros professores, como Arrigo Angelini e Gioconda Mussolini. Annita permaneceu neste cargo, na Seção de Medidas Mentais, até 1935; coordenou atividades de estágio ligadas à aplicação de técnicas de exames psicológicos, além de participar de pesquisas e ministrar curso de Psicologia Educacional. Em 1938, formou-se com distinção na primeira turma da Secção de Filosofia, na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras (FFCL/USP). No ano seguinte, exerceu o cargo de Primeira Assistente das duas cadeiras de Sociologia da FFCL/USP que eram dirigidas, respectivamente, por Roger Bastide e Paul Arbousse-Bastide.

No final da década de 1930 e início de 1940 foi Assistente da Cadeira de Psicologia, no Curso de Filosofia, então sob a direção de Jean Maugüé. Em 1941 recebeu bolsa de estudos da Latin American Fellowschip do Smith College, Northampton, Mass., nos Estados Unidos. Lá estudou Psicologia Experimental com J.J. Gibson e Psicologia da Gestalt com Kurt Koffka e Fritz Heider. Nos dois anos seguintes, sob orientação de Max Wertheimer, na Graduate Faculty, New School for Social Research, Annita Cabral desenvolveu e defendeu sua dissertação de mestrado intitulada “Memória das Formas”. Posteriormente, ampliou este trabalho, transformando-o em sua tese de doutorado intitulada “O conflito dos resultados dos experimentos sobre a memória das formas”, defendida em 1945 na FFCL/USP sob orientação de Roger Bastide e publicada no Boletim da Faculdade de Filosofia. Nesse mesmo ano, Annita Cabral foi nomeada Primeira Assistente de Otto Klineberg (1899-1992), que dirigiu a Cadeira de Psicologia até 1947, quando retornou para a Columbia University, nos Estados Unidos. Com a partida de Klineberg, Annita foi contratada para assumir a Cadeia III de Psicologia na qual permaneceu até 1968. Ramozzi-Chiarottino (2001) destaca que, com a vinda de Klineberg, a Psicologia começou a se impor como ciência no ambiente paulista. Foi nesse clima e com a ajuda de Klineberg que Annita tomou a iniciativa de fundar a Sociedade de Psicologia de São Paulo, atual Associação de Psicologia de São Paulo (ASPSP), da qual foi presidente entre os anos de 1948 a 1949.

Annita Cabral foi também idealizadora e fundadora do Curso de Psicologia na USP, bem como responsável pela formação de seus alunos como pesquisadores, pois procurou enviá-los ao exterior com a finalidade de completarem sua formação. Entre seus assistentes e auxiliares, destacam-se personagens relevantes e de diferentes orientações teórico-metodológicas na psicologia, como Dante Moreira Leite, Carolina Martuscelli Bori, Walter Hugo de Andrade Cunha, Cesar Ades, Isaias Pessotti e Eclea Bosi.

O Curso de Psicologia na FFCL começou a ser desenhado com a criação de linhas de pesquisa na Cadeira de Psicologia da Secção de Filosofia. Ainda de acordo com Ramozzi-Chiarottino (2001), isto ocorreu num ambiente hostil, haja visto o fato de ser uma mulher chefiando um grupo de pesquisa e sua Cadeira (de Psicologia) pertencer ao Curso de Filosofia cujas disciplinas não possuíam um perfil nos moldes da ciência de então, mas sim de reflexão e crítica acerca da Ciência e de seu método de estudo.

Em 1953, Annita Cabral propôs a criação do Curso de Psicologia na Universidade de São Paulo à Congregação da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras. O Colegiado Técnico de Avaliação (CTA) analisou a proposta e emitiu parecer favorável, homologado em 16 de dezembro do mesmo ano. No entanto, a aprovação final do parecer não foi tranquila. A professora Noemy Silveira Rudolfer (1938-1954), catedrática de Psicologia Educacional do Curso de Pedagogia da FFCL, criado em 1938 (oriundo do Curso de Professores no Instituto de Educação), emitiu parecer desfavorável.

O Curso de Psicologia foi criado somente em 1957, pela Lei nº 3.862, de 28 de maio daquele ano, sendo o seu funcionamento iniciado no ano seguinte. O curso era constituído pelas cadeiras de Psicologia Educacional (Curso de pedagogia) e de Psicologia (Curso de Filosofia), sendo que esta se desdobrou em Psicologia Clínica e Psicologia Experimental e Social.

Durante os anos de 1950, além de seu empenho na criação do Curso de Psicologia, Annita Cabral realizou outras atividades como a organização do I Congresso Brasileiro de Psicologia, ocorrido em 1953. Participou também de associações como a American Sociological Association (1950) e a Sociedade Interamericana de Psicologia (1954). Ainda em 1954, foi responsável pela criação da revista Boletim de Psicologia da ASPSP e, com o auxílio de Durval Marcondes, Aníbal Silveira e Cícero Cristhiano de Souza, criou a Especialização em Psicologia Clínica. Foi conselheira da Secretaria de Educação entre os anos de 1955 a 1956 e presidente da Associação Brasileira de Psicólogos no período de 1957 a 1958.

A partir de sua atuação no I Congresso de Psicologia, realizou consultas aos professores universitários para a realização de reunião acerca do anteprojeto de criação dos Cursos de Psicologia e da Regulamentação da Profissão de Psicólogos. Tal proposta fora inicialmente elaborada pela Associação Brasileira de Psicotécnica com a participação dos técnicos do Instituto de Seleção e Orientação Profissional (ISOP) e encaminhada ao Ministério da Educação (MEC) em novembro de 1953, tendo sido alterada em 1957 e enviada ao Legislativo em 1958. Em 1961, a partir das relações da Associação Brasileira de Psicotécnica com a Sociedade de Psicologia de São Paulo e a Associação Brasileira de Psicólogos, foi apresentado um substitutivo ao Anteprojeto de Lei 3.825/1958 do MEC possibilitando a criação dos cursos de Psicologia e a regulamentação da profissão de psicólogo com a Lei 4.119 de 27 de agosto de 1962.

Nos anos de 1960, Annita Cabral dedicou-se à melhoria do Curso de Psicologia, como a criação de uma oficina para construção de aparelhos científicos a serem utilizados nos laboratórios da Cadeira de Psicologia, contratação do analista experimental do comportamento Fred S. Keller (1899 ¿ 1996) para ministrar a matéria Psicologia Experimental, instalação de laboratórios, criação do Serviço de Psicologia Clínica e do Centro de Psicologia Aplicada ao Trabalho e do biotério. Além disso, fundou a revista Jornal Brasileiro de Psicologia.

Em 1968, a maioria dos assistentes de Annita Cabral, bem como muitos estudantes, envolvidos nos movimentos estudantis da época, pressionaram Annita para renunciar à Cadeira de Psicologia, que ela ocupava informalmente, visto não ter feito concurso para livre docente. Questionavam sua atuação como docente e administradora, acusando-a de despotismo, e solicitaram sua demissão pela USP. Annita Cabral renunciou à Cátedra, que foi transformada no Departamento de Psicologia Social e Experimental, mas continuou durante quase dois anos no Instituto de Psicologia como professora assistente do Departamento de Psicologia Educacional, a convite de Arrigo Angelini. Com a reforma universitária de 1968, deixaram de existir as cátedras. Em 1970, afastou-se da USP.

Annita de Castilho e Marcondes Cabral faleceu em São Paulo no ano de 1991.

Fontes:

Castro, A. C. & Alcântara, E. S. (2011). Associação Brasileira de Psicologia Aplicada (ABRAPA) ¿ 1993-. In A. M. Jacó-Vilela (Org.), Dicionário histórico de instituições de Psicologia no Brasil (pp. 45-47). Rio de Janeiro: Conselho Federal de Psicologia.

Ghiringbello, L. (2001). CABRAL, Annita de Castilho e Marcondes (1911 ¿ 1991). In R. H. F. Campos (Org.), Dicionário biográfico da Psicologia no Brasil: Pioneiros (pp. 106 – 108). Rio de Janeiro: Imago.

Ramozzi-Chiarottino, Z. (2001). Annita de Castilho e Marcondes Cabral e a aurora da psicologia no Brasil. Rio de Janeiro: Imago; Brasília, DF: CFP.

Lidiane de Oliveira Góes
Ana Maria Jacó-Vilela

Fonte: Pioneiras da Ciência – 4ª edição – CNPQ

Anita Paes Barreto

Anita Paes Barreto


BARRETO, Anita Paes (1907 – )

Nasceu em Recife. Em 1924 concluiu o Curso Normal. Laureada com medalha de ouro, foi nomeada no ano seguinte professora primária do Estado de Pernambuco, lotada na capital. Como primeira tarefa, coube-lhe ocupar-se da educação de crianças excepcionais. O interesse pela educação especial a acompanhou por toda a sua vida profissional: no Instituto de Psicologia de Pernambuco, onde, em 1925, ano da fundação do Instituto, iniciou sua prática e estudos psicológicos, sob a orientação de Ulisses Pernambucano; na Escola Aires Gama, hoje Ulisses Pernambucano, da qual foi diretora de 1942 a 1957; na Clínica de Conduta da Faculdade de Filosofia do Recife, criada em 1949 com a colaboração de Béla Szekely, onde atuou como primeira psicóloga – denominação então corrente para designar o profissional mais destacado.

Seguindo a tendência da época e a orientação predominante do Instituto de Psicologia, Anita realizou numerosos estudos relacionados à psicotécnica: em 1927, em colaboração com Ulisses Pernambucano, publicou Estudo psicotécnico de alguns testes de aptidão; entre 1931 e 1935, coordenou e realizou várias pesquisas objetivando a elaboração da Revisão Pernambucana do Teste de Binet, Simon, Terman, trabalhos publicados em Neurobiologia, Jornal de Medicina de Pernambuco e Arquivos de Assistência a Psicopatas de Pernambuco; em 1955, com a colaboração de Dilucina Lopes e Maria do Carmo Souto, realizou pesquisa sobre “O psicodiagnóstico de Rorschach em crianças”, cujos resultados foram expostos na VII Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência – SBPC.

Anita Paes Barreto destacou-se por sua atuação docente na Escola de Serviço Social de Pernambuco, na Faculdade de Filosofia do Recife e na Universidade do Recife, atual Universidade Federal de Pernambuco. Católica praticante, sensibilizada pelos problemas sociais, imprimiu um sentido político à sua atuação como psicóloga e educadora. A influência primeira viera de Ulisses Pernambucano. Na maturidade, fez-se mais presente a dimensão política de sua ação, sobretudo como fundadora e diretora da Divisão de Educação do Movimento de Cultura Popular e colaboradora de Miguel Arraes: assessora de Educação, quando ele era prefeito do Recife; Secretária de Educação do Estado e Presidente da Fundação da Promoção Social, quando ele era governador do Estado. De 1988 a 1991, Anita integrou o Conselho Estadual de Educação de Pernambuco. Com o golpe militar de 1964, foi presa por 17 dias, acusada de subversão, oportunidade em que deu uma lição de coerência e altivez. Em 1997, o Conselho Federal de Psicologia lhe concedeu uma comenda, por sua contribuição ao desenvolvimento da Psicologia como ciência e profissão.

Publicações:

BARRETO, A. P. Estudo psicotécnico de quatro supernormais. Arquivos da Assistência a Psicopatas de Pernambuco, 1932.

BARRETO, A. P. O psicodiagnóstico de Rorschach em crianças. Lumen, p. 21-48, 1980. Número Especial.

BARRETO, A. P. Revisão pernambucana da Escala de Binet-Simon-Terman, de 9 a 10 anos. Arquivos da Assistência a Psicopatas de Pernambuco, 1934.

BARRETO, A. P. Revisão pernambucana da Escala de Binet-Simon-Terman, nas idades de 11 anos e adultos. Arquivos da Assistência a Psicopatas de Pernambuco. 1934.

BARRETO, A. P.; CAMPOS, A. Revisão pernambucana da Escala de Binet- Simon-Terman, de 5 a 8 anos. Arquivos da Assistência a Psicopatas de Pernambuco, 1934.

PERNAMBUCANO, U.; BARRETO, A. P. Estudo psicotécnico de alguns testes de aptidão. Recife: Imprensa Industrial I. Nery da Fonseca, 1927.

Fontes:

PERNAMBUCANO, U. O vocabulário das crianças das escolas primárias do Recife. Arquivos Brasileiros de Higiene Mental, v. 1, n. 1, 1931.

Paulo da Silveira Rosas

Fonte: Dicionário biográfico da psicologia no Brasil: Pioneiros / Autor(a): Regina Helena de Freitas Campos (org.) Imago Editora – Rio de Janeiro – 2001 – 461 p.

Antônio Austregésilo

Antônio Austregésilo


AUSTREGÉSILO, Antônio Rodrigues Lima (1876 – 1961)

Natural de Recife – Pernambuco. Psiquiatra e neurologista, considerado o fundador da neurologia brasileira por ter sido o primeiro catedrático de clínica neurológica no Brasil. Dedicou sua vida profissional à clínica e ao magistério, publicando grande quantidade de livros e artigos em revistas científicas. Sua obra é extensa e atravessa os campos da criminologia, da psicanálise, da psicoterapia, da psiquiatria e da neurologia. Ocupou cargos expressivos em instituições médicas da época, como os de presidente da Academia de Medicina, da Sociedade Brasileira de Neurologia e da Sociedade de Medicina e Cirurgia. Foi, ainda, um dos fundadores do periódico Archivos Brasileiros de Medicina, em 1911.

Aos 16 anos de idade foi para a cidade do Rio de Janeiro cursar medicina, formando-se em 1899 pela Faculdade de Medicina desse Estado. Trabalhou então no Hospício Nacional de Alienados (1906), na enfermaria da Santa Casa de Misericórdia (1910) e foi professor de clínica médica da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro (1909). Em 1912, foi convidado, em virtude de sua dedicação aos “enfermos nervosos”, a ocupar o cargo de professor da primeira cátedra de Neurologia no Brasil, fundando, assim, a “escola neurológica brasileira”, que teve Deolindo Couto como seu continuador.

Austregésilo também foi um dos precursores da psicanálise em território brasileiro. Já em 1919, publica seu primeiro livro, intitulado Sexualidade e psiconeuroses, em que lança mão de algumas idéias psicanalíticas. Influenciado por tais idéias, passou a se dedicar de maneira mais intensa aos aspectos psicológicos do ser humano. À psicoterapia reservou um lugar privilegiado, atuando por mais de quarenta anos nesse campo. Chegou a produzir sua própria concepção psicoterápica, na qual estabelece uma curiosa conjugação entre neurologia e psicanálise. Para Austregésilo, nutrição e reprodução caracterizariam a síntese da vida. Por isso, essas duas leis vitais – representadas por fames e libido – deveriam ser educadas e controladas para que os indivíduos pudessem atingir o grau mais elevado da civilização.

Austregésilo utilizou dois dispositivos principais em sua prática profissional: a psicoterapia, exercida em seu consultório particular, e a auto-sugestão, divulgada através de seus livros de auto-ajuda, que ocuparam um lugar fundamental em sua produção. Com tais livros, pretendia extrapolar os limites do consultório e levar conselhos de cunho curativo e preventivo ao grande público. Entre as obras estão: A Cura dos nervosos (1939); Conselhos práticos aos nervosos (1929); Educação da alma (1932). Faleceu no Rio de Janeiro – RJ.

Publicações:

AUSTREGÉSILO, A. A cura dos nervosos. In: ______. Obras completas. Rio de Janeiro: Guanabara, 1944/1949. v. 5.

AUSTREGÉSILO, A. Auto-sugestão. Archivos Brasileiros de Medicina, v. 4, n. 4, p. 237-414, 1924.

AUSTREGÉSILO, A. Conselhos práticos aos nervosos. In: ______. Obras completas. Rio de Janeiro: Guanabara, 1944/1949. v. 2.

AUSTREGÉSILO, A. Educação da alma. In: ______. Obras completas. Rio de Janeiro: Guanabara, 1944/1949. v. 4.

AUSTREGÉSILO, A. Fames, libido e ego: sua aplicação à análise mental. In: ______. Obras completas. Rio de Janeiro: Guanabara, 1944/1949. v.2.

AUSTREGÉSILO, A. Psiconeuroses e sexualidade. In: ______. Obras completas. Rio de Janeiro: Guanabara, 1944/1949. v. 2.

AUSTREGÉSILO, A. Psycho-analyse nas doenças mentaes e nervosas. Archivos Brasileiros de Neuriatria e Psiquiatria, ano 4, v. 1, n. 1/2, p. 87-114, 1922.

Fontes:

GOMES, M. M. Marcos históricos da neurologia. Rio de Janeiro: Ed. Científica Nacional, 1997.

LEME LOPES, J. Antônio Austregésilo, psiquiatra. Jornal Brasileiro de Psiquiatria. v. 10, n. 2, p. 109-114, 1961.

MARIZ, J. Antônio Austregésilo: história de um professor de medicina. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1947.

MOKREJS, E. A psicanálise no Brasil: as origens do pensamento psicanalítico. Rio de Janeiro: Vozes, 1993. p. 109-114.

Fabio Jabur

Fonte: Dicionário biográfico da psicologia no Brasil: Pioneiros / Autor(a): Regina Helena de Freitas Campos (org.) Imago Editora – Rio de Janeiro – 2001 – 461 p.

Carolina Bori

Carolina Bori


BORI, Carolina Martuscelli (1924- )

Natural de São Paulo – SP. Expressiva personalidade da Psicologia brasileira, notabilizou-se por sua atuação no fortalecimento da pesquisa científica e na introdução da Análise Experimental do Comportamento no Brasil. Sua formação superior iniciou-se na Universidade de São Paulo – USP, onde se licenciou em Pedagogia pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras – FFCL, em 1947. Em 1948 foi contratada pela USP como Professora Assistente de Psicologia. Obteve o grau de Mestre em 1952, na Graduate School of the New School for Social Research, em Nova York. Doutorou-se em Psicologia pela FFCL-USP, sob a orientação de Anita de Castilho e Marcondes Cabral, em 1954.

Sua carreira desenvolveu-se entre a Psicologia, a Educação, a ciência em geral e a política científica. É inestimável sua contribuição na formação de mestres e doutores, hoje professores e pesquisadores em Psicologia, em programação de ensino e em ensino de ciências espalhados pelo País. Carolina participou da implantação da Psicologia Experimental na USP, em Rio Claro e nas Universidades Federais de São Carlos, da Bahia, do Pará e do Rio Grande do Norte. Integrou o grupo de professores que participou, com Darcy Ribeiro e Anísio Teixeira, da fundação da Universidade de Brasília – UnB, onde coordenou o Instituto de Psicologia e criou o laboratório de Psicologia Experimental (1963 a 1965). Na UnB, participou do desenvolvimento do sistema de instrução personalizada – método Keller.

Participou da regulamentação da profissão de psicólogo e do estabelecimento do primeiro currículo mínimo para a formação de psicólogos (1962). Presidiu ou participou de diretorias de sociedades científicas, como a Associação Brasileira de Psicologia, a Sociedade de Psicologia de São Paulo, a Associação de Modificação do Comportamento e a Sociedade Brasileira de Psicologia. Foi fundadora e presidente da Associação Nacional de Pesquisa e Pós-graduação em Psicologia. Foi fundadora da Associação de Docentes da USP. Presidiu a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência – SBPC (1986 a 1989), tendo sido a primeira mulher a ocupar tal posição.

No período da ditadura militar, Carolina contribuiu de forma significativa, através das associações científicas e de classe, para o engajamento da comunidade acadêmica com as grandes questões políticas e sociais e com a restauração da democracia. Sua preocupação em “diminuir a distância entre o conhecimento gerado na academia e o que chega à população” traduziu-se no incentivo, na SBPC, às atividades de divulgação científica, como programas de rádio e conferências por todo o país na década de 80. Com o mesmo espírito, participou da criação e do desenvolvimento do FUNBEC, do Instituto Brasileiro de Educação, Cultura e Ciência – IBEC, da Associação Interciência e da Estação Ciência, em São Paulo. Recebeu, na década de 90, homenagens e títulos honoríficos de universidades brasileiras e de associações científicas como a SBPC e a American Psychological Association. Foi a primeira mulher a receber o título de Doutora Honoris Causa da UnB. É professora emérita da USP. Aposentada, não abdica de sua carreira, tendo participado da Comissão de Especialista de Ensino de Psicologia – Ministério da Educação, e continua no Núcleo de Pesquisa sobre Ensino Superior da USP e no IBEC.

Fontes:

AB’SABER, Aziz Nacib. Carolina Bori: a essência de um perfil. Psicologia USP, v. 9, n.1, p.37-39, 1998.

ADES, César. Lembranças a respeito de Carolina: 1968. Psicologia USP, v. 9, n.1, p.71-77, 1998.

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FEITOSA, Maria Angela G. Carolina Bori recebe o título de Doutora Honoris Causa na Universidade de Brasília. Brasília, 27 out. 2000. Apresentação feita em sessão especial do Conselho Universitário da Universidade de Brasília.

FERNANDES, Ana Maria. A construção da ciência no Brasil e a SBPC. Brasília: Ed. Universidade de Brasília/ANPCS/CNPq, 1990.

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Mariza Monteiro Borges

Fonte: Dicionário biográfico da psicologia no Brasil: Pioneiros / Autor(a): Regina Helena de Freitas Campos (org.) Imago Editora – Rio de Janeiro – 2001 – 461 p.

Elisa Veloso

Elisa Veloso


VELOSO, Elisa Dias (1914 – )

Natural do estado de Minas Gerais. Em sua formação profissional, teve grande contato com Helena Antipoff, no Laboratório de Psicologia da Escola de Aperfeiçoamento de Professores de Minas Gerais em Belo Horizonte, onde foi aluna no período de 1936 a 1941; e com Mira y López, no departamento Administrativo do Serviço Público – DASP, em um curso sobre seleção, orientação e readaptação profissional, de 1945 a 1948, e no Instituto de Seleção e Orientação Profissional – ISOP, em curso sobre Psicoterapia do Menor, em 1948.

Sua participação na Psicologia foi intensa: atuou como pesquisadora, professora e terapeuta, tendo sido muito importante para a consolidação da Psicologia Clínica. Ministrou aulas de Psicologia no Instituto de Educação de Belo Horizonte entre 1938 e 1941, quando foi para o Rio de Janeiro e iniciou seu trabalho no Instituto Nacional de Estudos Pedagógicos, onde permaneceu de 1941 a 1944. Transferiu-se para o Departamento Nacional da Criança (1944-1969). Nesse período, deu suas maiores contribuições, que estão ligadas ao Centro de Orientação Juvenil – COJ, onde trabalhou de 1946 a 1968. O COJ foi fundado em 1946 por Helena Antipoff e incorporado à Seção de Orientação Social da Divisão de Proteção Social do Departamento Nacional da Criança. Desenvolvia atividades de treinamento profissional, pesquisa e demonstração no campo da assistência psicológica ao adolescente. Os trabalhos eram realizados com equipes interdisciplinares e através de clínicas de orientação, que marcavam diferença dos serviços ambulatoriais médicos por oferecerem assistência ao adolescente e ao seu meio familiar e social. Era subdividido em setores de Psiquiatria, Serviço Social e Psicologia. Neste último, havia três áreas: diagnóstico psicológico e orientação; psicoterapia para adolescentes e orientação para os responsáveis (o predominante); e tratamento analítico. D. Elisa fazia atendimentos psicológicos como orientadora e terapeuta de crianças e adolescentes, realizava supervisões com a equipe de Psicologia e reuniões clínicas com discussões de casos, além de ter sido diretora no período de 1960 a 1964. No COJ trabalhou com Leme Lopes e conheceu o Padre Benkö.

Ministrou aulas na pós-graduação médica da Escola Nacional de Saúde Pública, entre 1960 e 1964, no curso de graduação da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro – PUC-RJ, de 1960 a 1966, e na pós-graduação dessa mesma universidade, de 1967 a 1969. Participou de cursos e estágios na Inglaterra, em 1952, nos Estados Unidos, de 1965 a 1966, e no Uruguai, de 1967 a 1969. Ministrou cursos e conferências em diversos Estados brasileiros. Foi membro das seguintes associações: Associação Brasileira de Psicologia Aplicada, Sociedade Interamericana de Psicologia, Associação Internacional de Psicologia Aplicada, International Council of Psychologists e Comissão Interministerial, na qual foi uma das responsáveis pela elaboração de um anteprojeto de lei que criava os Conselhos de Psicologia. Teve participação ativa no Conselho Regional de Psicologia do Rio de Janeiro de 1974 a 1976, e no Conselho Federal de Psicologia, de 1976 a 1979, do qual foi presidente da comissão de ética. Participou de diversas pesquisas, dentre as quais uma sobre recreação infantil em abrigos para menores desamparados. Publicou cerca de cinqüenta artigos. Ganhou o Prêmio Dante Moreira Leite, pelo Conselho Federal de Psicologia, em 1982, e foi homenageada no Seminário Interdisciplinar da Associação Brasileira de Psicologia Aplicada, em 1998.

Publicações:

VELOSO, Elisa Dias. D. Helena Antipoff: impressões e lembranças de uma aluna. Suplemento Pedagógico Especial, n. 1, p. 3, abril de 1972.

VELOSO, Elisa Dias. Estudos sobre recreação infantil. Rio de Janeiro: Departamento Nacional da Criança/Departamento de Imprensa Nacional, 1949.

VELOSO, Elisa Dias. Helena Antipoff, psicóloga. Arquivos Brasileiros de Psicologia Aplicada, v. 28, n. 1, p. 101-107, jan./mar. 1976.

VELOSO, Elisa Dias; SILVA, Vera Castro. Alguns aspectos da evolução de uma clínica psicológica (Centro de Orientação Juvenil). Arquivos Brasileiros de Psicotécnica, v. 14, n. 1, p. 5-34, jan./mar. 1962.

Fontes:

CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA. Biografia: Elisa Dias Veloso. Psicologia: Ciência e Profissão, v. 18, n. 2, 1998.

GUEDES, Neide. Entrevista. Rio de Janeiro, 29 jan. 2001. Entrevista concedida a Karina Pereira Pinto.

Karina Pereira Pinto

Fonte: Dicionário biográfico da psicologia no Brasil: Pioneiros / Autor(a): Regina Helena de Freitas Campos (org.) Imago Editora – Rio de Janeiro – 2001 – 461 p.

Eva Nick

Eva Nick


NICK, Eva (1927 – 1990)

Nasceu em Viena, na Áustria. Filha de Siegfried e Auguste [Herzer] Graf. Chegou ao Brasil em 1930 e naturalizou-se brasileira em 1946. Do casamento com Jorge Henrique Nick, em 23 de dezembro de 1949, teve três filhos: Ricardo Jorge, Carlos Roberto e Sérgio Eduardo. Foi psicóloga, pedagoga, com pós-graduação em Estatística pela Universidade de Madri, Espanha, e Ph.D em Psicologia pelo Instituto de Psicologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro, em 1975.

Tradutora de livros e artigos (alemão, inglês, espanhol, português), foi consultora técnica de várias instituições: do Centro Editor de Psicologia Aplicada, Rio de Janeiro, de 1952 a 1956; do Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial, Rio de Janeiro, de 1955 a 1968; do Ministério da Aeronáutica, de 1968 a 1970, do Instituto de Seleção e Orientação Profissional – ISOP, da Fundação Getúlio Vargas – FGV, em 1970; do Centro de Estudos de Pessoal do Ministério do Exército, Rio de Janeiro, 1978; professora do Instituto de Educação, em 1966, da Universidade Gama Filho, de 1968 a 1971, da Universidade Federal Fluminense, do Centro de Pós-Graduação em Psicologia Aplicada da Fundação Getúlio Vargas, Rio de Janeiro, a partir de 1978. No Instituto de Psicologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro exerceu os cargos de Chefe do Departamento de Psicometria (1972), Vice-Diretora (1973), Diretora Adjunta de Ensino de Graduação (1974), Diretora de Ensino de Pós-Graduação e Pesquisa (1977) e Chefe da Divisão de Psicologia Aplicada (1978).

Foi também membro do Conselho Nacional de Pesquisas da Unesco, 1957-58. Foi premiada com as Medalhas da Ordem do Pacificador e da Ordem de Mérito de Santos Dumont, 1968. Foi membro de diversas sociedades científicas: da Associação Brasileira de Psicólogos, da Associação Brasileira de Psicologia Aplicada, da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência – SBPC, da Sociedade Interamericana de Psicologia e Psicometria Social. Seus hobbies eram música clássica, natação, poesias. Contribuiu como autora e co-autora para o campo da Psicologia e áreas afins com várias publicações. Faleceu no Rio de Janeiro.

Publicações:

CABRAL, Álvaro; NICK, Eva. Dicionário técnico de psicologia. 8. ed. São Paulo: Cultrix, 1995.

KELLNER, Sheila; NICK, Eva. Fundamentos de estatística para as ciências do comportamento. Rio de Janeiro: Renes, 1971.

NICK, Eva. Estatística e psicometria. Rio de Janeiro: J. Ozon, 1963.

NICK, Eva; RODRIGUES, Heliana. Modelos em psicologia. Rio de Janeiro: Zahar, 1977.

NICK, Eva; WEIL, Pierre. O potencial da inteligência do brasileiro. Rio de Janeiro: CEPA, 1972.

Elieth Nick
Sergio Eduardo Nick

Fonte: Dicionário biográfico da psicologia no Brasil: Pioneiros / Autor(a): Regina Helena de Freitas Campos (org.) Imago Editora – Rio de Janeiro – 2001 – 461 p.

Gioconda Mussolini

Gioconda Mussolini


MUSSOLINI, Gioconda (1913-1969)

Gioconda Mussolini (nascida em São Paulo em 1913) foi a primeira mulher, no Brasil, a fazer da Antropologia Social a sua profissão, tendo sido docente e pesquisadora na Faculdade de Filosofia da Universidade de São Paulo, desde 1935 até o dia da sua morte, em maio de 1969.

Ela foi a terceira das sete filhas de Umberto Mussolini (nascido em Veneza em 1886 e emigrado para o Brasil em 1888) e de Adalgisa Vieiga (nascida em 1889, filha de pai português e mãe brasileira). A família paterna foi se estabelecendo, aos poucos, nos bairros do Bom Retiro, da Luz e dos Campos Elísios, desenvolvendo atividades comerciais e industriais no setor alimentício. Gioconda formou-se como professora primária, em 1931, na Escola Normal Padre Anchieta. Logo no começo de 1933, ingressou oficialmente no quadro do ensino público paulista, nomeada para o Grupo Escolar de Pariquera-Assu, então distrito rural de Jacupiranga, no litoral sul do estado. Mas a permanência na região do baixo Vale do Ribeira será logo interrompida pela admissão, ainda em 1933, no Curso de Aperfeiçoamento de Professores Primários que funcionava no Instituto Pedagógico “Caetano de Campos”, na Praça da República, e que, como a própria Gioconda escreveria num Currículo de 1965, “equivalia aos dois primeiros anos do Curso de Pedagogia da Faculdade de Filosofia” da USP.

É este o verdadeiro ponto de virada na carreira e na trajetória de Gioconda Mussolini, que, a partir de então, seria aluna, entre outros, de Fernando de Azevedo, Almeida Jr., Noemy da Silveira Rudolfer. Além desses, Gioconda entra em contato com outros docentes, alguns dos quais pouco mais velhos que ela: alguns estarão entre os seus colegas na FFCL, a partir de 1935, como Anita de Castilho, Marcondes Cabral e Zenith Mendes da Silveira. Em outras palavras, em 1933, iniciam os estudos superiores de Gioconda Mussolini, na primeira turma desse novo Instituto de Educação. É a primeira e única da frátria a dar esse passo, dado contemporaneamente aos primeiros passos do próprio ensino superior paulista, se atentarmos para o fato de que, até este ano, só existiam as Escolas “profissionais”: Direito, Medicina e a Politécnica. A Escola Livre de Sociologia e Política também abria as suas atividades em 1933, e a USP, ao criar a Faculdade de Filosofia e ao reuni-la àquelas escolas e a este Instituto de Educação, só surgiria em 1934.

Embora não tenhamos maiores informações sobre as suas atividades e a sua rotina, basta o nome e a estrutura de um dos laboratórios do IE para compreendermos a sua importância na formação de Gioconda: o Laboratório de Pesquisas Sociais e Educacionais contava com um Centro de Documentação Etnográfica e Social e com um Museu de Etnografia. Nesse biênio na “Praça”, então, Gioconda Mussolini teve acesso à “degustação” de um variado cardápio de novos sabores intelectuais, que lhe aguçaram um apetite a ser saciado, já a partir do ano seguinte, no curso de Ciências Sociais da Faculdade de Filosofia. Afinal, para uma moça em volta dos seus vinte anos de idade, nascida e criada no Bom Retiro, devem ter sido extraordinárias as experiências proporcionadas por um grupo de educadores também num momento decisivo e especial das suas atuações institucionais. Por sua vez, o lugar desse conjunto de práticas é também um lugar múltiplo: o Caetano de Campos tinha posição e função centrais nesse quadrante da educação pública paulista. Nela convergiam elementos de um campo que me parece estar, ao mesmo tempo, em formação e em ponto de mutação, com a presença e a participação de médicos, higienistas, pedagogos, juristas, psicólogos, estatísticos, sociólogos.

Em 1935, Gioconda entra na então denominada sub-Seção de Ciências Sociais e Políticas da recém criada Faculdade de Filosofia, Ciência e Letras da USP, como integrante da segunda turma de ingressantes naquela instituição e como “professora primária comissionada”[1], ou seja, dispensada, com vencimentos, das suas atividades docentes. Pertence àquele “grupo de jovens, animado de grande ardor para o trabalho, conhecendo perfeitamente as suas possibilidades, mas sabendo também que, antes de mais nada, são professores e que por esta razão foram enviados à Faculdade”, na definição de um dos seus mais destacados professores, o geógrafo francês Pierre Monbeig[2].

Mulher, e com sobrenome imigrante[3], Gioconda Mussolini encaixa-se bem no perfil dos alunos da FFCL a partir do seu segundo ano de funcionamento, um grupo social muito diferente do preconizado pelos seus mentores, e também bem distinto do perfil daqueles que se encaminhavam para as antigas faculdades profissionais já existentes[4]: os filhos da elite paulista.

Ela assiste às aulas ¿ ministradas sempre em francês ¿ de alguns dos professores daquela que ficou conhecida como a “missão francesa”: Paul Arbousse Bastide, Claude Lévi-Strauss e Roger Bastide (Sociologia), Pierre Monbeig (Geografia), Fernand Braudel (História) e Jean Magüé (Filosofia), entre outros. São seus colegas de turma Gilda de Mello e Souza (então Moraes Rocha), Mário Wagner Vieira da Cunha, Ruy Coelho, Décio de Almeida Prado e Egon Schaden. Este, procedente de uma família de origem alemã, do interior de Santa Catarina, é destinado a desempenhar um papel de grande relevância na vida e na carreira de Gioconda. O nome dela figura, também, na conhecida listagem do (agora consagrado) antropólogo Lévi-Strauss em Tristes Trópicos (1955):

“[…] Pensando em vós, segundo vosso costume, por vossos nomes de batismo tão barrocos para um ouvido europeu, mas cuja diversidade exprime o privilégio que foi ainda o de vossos pais, de poder livremente, de todas as flores de uma humanidade milenar, colher o viçoso buquê da vossa: Anita, Corina, Zenaida [sic], Lavínia, Thaís, Gioconda, Gilda, Oneide, Lucilla, Zenith, Cecília, e vós, Egon, Mário Wagner, Nicanor, Ruy, Lívio, James, Azor, Achilles, Décio, Euclides, Milton […]”[5].

O envolvimento de Gioconda com os seus professores e, há de se presumir, o seu bom ou mesmo ótimo rendimento escolar, fizeram com que ela se destacasse entre os seus colegas e, ainda em 1935, recebesse convite do recém criado Departamento Municipal de Cultura de São Paulo, dirigido por Mário de Andrade, para atuar como “pesquisadora social”, mais especificamente na “Divisão de Documentação Histórica e Social”, chefiada, à época, por Sergio Milliet e pelo engenheiro checo Bruno Rudolfer (ambos do grupo de fundadores da Escola Livre de Sociologia e Política), e que contava também com a participação de Luís Saia, arquiteto-engenheiro e futuro integrante da “Missão de Pesquisas Folclóricas” de 1938, e do sociólogo e estatístico norte-americano, Samuel H. Lowrie (também docente da ELSP). Esse período também compreende a sua participação na criação da “Sociedade de Etnografia e Folclore”, ao lado de boa parte dos primeiros professores de Gioconda e de alguns dos seus colegas de Faculdade: Roger Bastide, Pierre Monbeig, Plínio Ayrosa, Paul Arbousse-Bastide, Lévi-Strauss, Lavínia Costa Vilella, Lucilla Herrmann, Mário Wagner, Emilio Willems, Oneyda Alvarenga, além, é claro do próprio Mário de Andrade.

Licenciada em 1937, Gioconda Mussolini volta a lecionar no Grupo Escolar da Vila Prudente, mas, logo em 1938, é admitida como “membro do Centro de Pesquisas e Documentação Social” da Cadeira de Sociologia I da FFCL, regida então por Paul Arbousse Bastide (mas que mudará de chefia em 1941, com Roger Bastide, que havia chegado, nesse mesmo ano de 1938, em substituição de Lévi-Strauss, de regresso à Europa) e onde, mais tarde[6], se tornaria Auxiliar de Ensino. A pessoa responsável pelo convite, portanto, deve mesmo ter sido Arbousse Bastide, seu ex-professor. Gioconda ficará colaborando com ele durante três anos (até 1941) e mais três anos (até 1944) com Roger Bastide. A contratação de Gioconda na Cadeira se dá com a fórmula do “comissionamento, sem prejuízo dos vencimentos do cargo efetivo”, ou seja, mantendo o cargo e o salário de professora primária, desenvolve as suas atividades na Faculdade de Filosofia.

Em 1944 (“comissionada” nas mesmas condições anteriores), transfere-se para a Cadeira de Antropologia, criada em 1941 e regida pelo professor alemão Emilio Willems, de quem Gioconda se tornaria, no começo, 2a. assistente. Em 1951, ela será promovida a 1a. assistente, no lugar de Egon Schaden, que substituíra Willems, a caminho dos Estados Unidos, onde assumirá o posto de Professor de Antropologia na Vanderbilt University, em Nashville .

Um ano após ter migrado da Cadeira de Sociologia à de Antropologia, Gioconda defendeu a dissertação de mestrado (Os meios de defesa contra a moléstia e a morte em duas tribos brasileiras: Kaingang de Duque de Caxias e Bororó Oriental), na ELSP, em que ingressara em 1941 e onde tinha sido aluna de, entre outros, Donald Pierson, Herbert Baldus, Willems, Sergio Milliet e, durante a sua rápida passagem pelo Brasil (1942-1943), A. R. Radcliffe-Brown. Entre os seus colegas, ainda Lucila Herrmann, Oracy Nogueira, Virginia Leone Bicudo e, no último ano, também Florestan Fernandes, com que Gioconda estabeleceria uma longa e firme amizade. É nesse contexto, portanto, que ela se torna, ainda mais “oficialmente”, uma antropóloga. E é esse ano de 1944 que marca o começo da sua atuação nesse campo disciplinar, com as primeiras pesquisas, em comunidades caiçaras no Litoral Norte de São Paulo, as primeiras publicações e a orientação de estudantes, alguns dos quais se tornariam nomes importantes da Antropologia Brasileira: Ruth Cardoso, Eunice Durham, Antonio Augusto Arantes ¿ sobretudo[7].

A relevância de Gioconda Mussolini para a antropologia brasileira desdobra-se em três direções. Primeiro, por ela ter protagonizado os primórdios do ensino na disciplina, numa instituição pioneira como a FFCL da USP, concorrendo para a formação de muitos cientistas sociais, alguns dos quais ativos até hoje; segundo, pela sua contribuição ao campo da “antropologia da doença”, através da sua dissertação de mestrado, defendida na Escola Livre de Sociologia e Política, em 1945; finalmente, e sobretudo, o nome dela é referência fundamental para os estudos brasileiros sobre pesca, sobre cultura e organização social de comunidades litorâneas em geral e das populações caiçaras do litoral de São Paulo, em particular. O campo da antropologia da pesca tem no nome de Gioconda Mussolini uma espécie de “mãe fundadora”. Suas reflexões ainda orientam os estudos de muitos pesquisadores contemporâneos. Na primeira e na terceira dessas três direções, não é mais nem tanto o “pioneirismo” a ser marca de reconhecença, mas as novidades teóricas, metodológicas e epistemológicas que ela tentou introduzir na sua produção acadêmica, a despeito da sua reduzida dimensão e da dispersão a que ela foi submetida.

Essas novidades determinaram tanto o clima (ora negativo ora indiferente) com que os seus trabalhos foram recebidos no lugar específico em que eles eram situados (a Cadeira de Antropologia da USP, onde ela lecionou de 1944 a 1969), quanto a sua própria escassez, pois ao seu conjunto falta justamente a peça que lhe arremataria o sentido: a (quase) desaparecida tese de doutoramento[8]. Mesmo assim, o conjunto de artigos e outros textos de Gioconda Mussolini parece mais que suficiente para que a sua figura reassuma a posição central que, como professora de sala de aula, todos lhe reconhecem. Essa tese, aliás, é a pedra de toque, ainda que parcialmente ausente, para os demais trabalhos que ela conseguiu concluir e publicar. Estes, por sua vez, iluminam o vazio que seria ocupado pela tese, numa tentativa de imaginar uma solidez coerente, representada pela sua contribuição às ciências sociais do país.

Principais obras de Gioconda Mussolini

1944: Notas sobre os conceitos de moléstia, cura e morte entre os índios Vapidiana. Sociologia, 6 (2).
1945: O Cerco da Tainha na Ilha de São Sebastião Sociologia, 7 (3). Agora disponível em: http://www.pesnochao.org.br/databank/documento02.pdf
1946: O Cerco Flutuante: uma Rede de Pesca Japonesa que teve a Ilha de São Sebastião como Centro de Difusão no Brasil. Sociologia, 8 (3). Agora disponível em: http://www.pesnochao.org.br/databank/documento03.pdf
1950: Os “Pasquins” do Litoral Norte de São Paulo e suas peculiaridades na Ilha de São Sebastião.Revista do Arquivo Municipal, CXXXIV. Agora disponível em: http://ufdc.ufl.edu/UF00023425/00001/1x
1952: Buzios Island: a Caiçara Community in Southern Brazil (com Emilio Willems).
1953: Aspectos da cultura e da vida social no litoral brasileiro. Revista de Antropologia, 1 (2). Agora disponível em: http://www.pesnochao.org.br/databank/documento01.pdf
1955: Persistência e mudança em sociedades de folk no Brasil, Anais do XXXI Congresso Internacional de Americanistas, vol. I. Agora disponível em: http://www.revistas.usp.br/cadernosdecampo/article/view/45609.
1963: Os japoneses e a pesca comercial no litoral norte de São Paulo. Revista do Museu Paulista, 14. Agora disponível em: http://www.pesnochao.org.br/databank/documento04.pdf
1969 (org.): Evolução, Raçae Cultura (Leituras de Antropologia Física).
Póstumas:
1980: Ensaios de Antropologa Indígena e Caiçaras (org. de Edgard Carone e Introdução de Antonio Candido ¿ reúne os artigos de tema marítimo e a dissertação de mestrado).
2003: A Ilha de Búzios: uma comunidade Caiçara no Sul do Brasil (com Emilio Willems, tradução do livro de 1952).

Fontes

[1] Cfr. LIMONGI, Fernando (2001). A Escola Livre de Sociologia e Política em São Paulo. In: S.Miceli (org.). História das Ciências Sociais no Brasil. Vol. 1, II ed. São Paulo:Vértice, pp.257-275.

[2] Apud Ibidem, p. 191.

[3] A essa altura (1935), um sobrenome já muito “sonoro”: Benito Mussolini conquistara o poder na Itália em 1922, assumindo-o ditatorialmente em 1924, e ainda é aliado de Getúlio Vargas. Como se sabe, a ruptura entre o Brasil e os países do eixo só se daria na virada entre 1941 e 1942.

[4] LIMONGI (2001:197).

[5] LÉVI-STRAUSS, Claude (1996).Tristes Trópicos. São Paulo:Companhia das Letras, p.99-100. Dessa lista, Anita de Castilho e Marcondes Cabral (Psicologia), Gilda de Mello e Souza (Estética), Lavinia Costa Vilela (Sociologia), Zenith Mendes da Silveira (Economia) e Lucila Herrmann (Sociologia) também são “pioneiras da ciências”.

[6] Não localizei a data desta promoção na documentação da USP.

[7] No contexto deste verbete, não há como esmiuçar o resto da carreira acadêmica e científica de Gioconda Mussolini. Permito-me remeter à leitura de CIACCHI, Andrea.Gioconda Mussolini: uma travessia bibliográfica. Revista de Antropologia. 2007, vol. 50, n.1, pp.181-223. Disponível em http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0034-77012007000100005

[8] A tese, sob a orientação do catedrático (segundo os hábitos uspianos da época) Egon Schaden, nunca chegou a ser defendida, aparentemente porque ela nã conseguiria escrevê-la. Na realidade, ela havia redigido quase 500 folhas, que, porém, não foram julgadas adequadas para formarem uma tese apta a ser defendida. Nessas circunstâncias, Gioconda não pôde assumir a titularidade da Cátedra de Antropologia, quando da aposentadoria de Schaden, em 1967.

Andrea Ciacchi

Fonte: Pioneiras da Ciência – 4ª edição – CNPQ

Helena Antipoff

Helena Antipoff


ANTIPOFF, Helena Wladimirna (1892 – 1974)

Nasceu em Grodno – Rússia. Em 1909 obteve o diploma do Curso Normal em São Petersburgo, transferindo-se logo em seguida para Paris. Estudou na Sorbonne entre 1910 e 1911, obtendo o bacharelado em Ciências. Assistindo a palestras de Pierre Janet e Henri Bergson no Collège de France, começou a se interessar pela Psicologia. Estagiou no Laboratório Binet-Simon, tendo como orientador Théodore Simon, que a instruiu nos experimentos para medida da capacidade intelectual de crianças em idade escolar. Convidada por Edouard Claparède, foi, entre 1912 e 1916, aluna da primeira turma do Instituto Jean Jacques Rousseau – IJJR, em Genebra, onde obteve diploma de psicóloga, com especialização em Psicologia Educacional.

Em 1916, por ocasião da Primeira Guerra Mundial, recebeu notícias de que o pai, oficial do exército russo, fora ferido em combate. Retornando à Rússia, assistiu à eclosão da Revolução de Outubro de 1917. Entre 1919 e 1924, trabalhou como psicóloga observadora da Estação Médico-Pedagógica de Petrogrado e de Viatka, elaborando o diagnóstico psicológico e planejando a reeducação das crianças que haviam perdido suas famílias nos conflitos militares. Em 1921 trabalhou também como colaboradora científica do Laboratório de Psicologia Experimental de Petrogrado, realizando, junto com Nechaev, pesquisa sobre a influência da guerra no desenvolvimento mental de crianças em idade pré-escolar.

Ainda na Rússia, Helena Antipoff se casou com o jornalista Viktor Iretzky e, em 1919, nasceu Daniel, filho do casal. Em 1924, deixou novamente o país, indo encontrar-se com o marido, então exilado na Alemanha. Dois anos mais tarde, retornou a Genebra, passando a trabalhar como assistente de Claparède no Laboratório de Psicologia da Universidade de Genebra e como professora de Psicologia no IJJR. Entre os anos de 1926 e 1928, publicou diversos artigos em revistas especializadas na Suíça, nos quais se observa a influência das abordagens funcionalista e interacionista desenvolvidas por Claparède, assim como a influência da abordagem sócio-histórica russa. O Método da Experimentação Natural que, durante sua experiência na Rússia, aprendera a utilizar para a avaliação do desenvolvimento cognitivo, começou a ser amplamente divulgado e defendido nos artigos publicados por Helena Antipoff nos periódicos Archives de Psychologie, Intermédiaire des Éducateurs e Nouvelle Éducation.

A convite do governo do Estado de Minas Gerais, Helena Antipoff veio para o Brasil em 1929, atuando como professora de Psicologia na Escola de Aperfeiçoamento de Professores que fora instalada para atender às propostas da reforma do ensino mineiro de 1927 – Reforma Francisco Campos – Mário Casasanta. O contrato inicial de dois anos foi renovado sucessivas vezes ao longo da década de 1930. No Laboratório de Psicologia instalado na Escola de Aperfeiçoamento, com suas alunas, promoveu um variado programa de pesquisas sobre o desenvolvimento mental, os ideais e os interesses das crianças mineiras. Os resultados dessas pesquisas subsidiaram a introdução de testes de inteligência nas escolas primárias e, concomitantemente, o processo de homogeneização das classes escolares. Nessa época, Helena Antipoff elaborou reflexões acerca da relação entre meio socioeconômico e desenvolvimento mental, e propôs às escolas a adoção de programas de “ortopedia mental”, acreditando que os mesmos poderiam auxiliar na equalização de oportunidades para as crianças provenientes dos meios de baixa renda, as quais, geralmente, não obtinham, nos testes de inteligência, resultados considerados satisfatórios para sua faixa etária.

Acreditando na educação compensatória, a partir da década de 1930, Helena Antipoff começou a estimular na elite mineira a promoção de programas para a reeducação de crianças excepcionais. Nesse sentido, fundou a Sociedade Pestalozzi de Belo Horizonte, em 1932. Contando com o apoio de um grupo de médicos, educadores e religiosos, a Sociedade promovia o cuidado às crianças excepcionais e a preparação de professores para as classes especiais das escolas públicas. Em 1934, do consultório médico-pedagógico para crianças deficientes que fora fundado na Sociedade Pestalozzi, surgiu o Instituto Pestalozzi de Minas Gerais, que funcionaria como escola para essas crianças. A partir de 1940, a Sociedade Pestalozzi, ainda sob a liderança de Helena Antipoff, instalou a Escola da Fazenda do Rosário. Localizada no município de Ibirité, a 26 quilômetros de distância de Belo Horizonte, tinha como objetivo a educação, num ambiente saudável, de crianças excepcionais ou abandonadas, seguindo as propostas da Escola Ativa.

Na década de 1930, Helena Antipoff foi também professora fundadora da cadeira de Psicologia Educacional na Universidade de Minas Gerais – UMG (atualmente Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG), lecionando essa disciplina na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, para os cursos de Didática (Licenciatura) e de Pedagogia. Afastou-se da Sociedade Pestalozzi e da UMG a partir de 1944, quando se transferiu para o Rio de Janeiro. Entre 1944 e 1949, trabalhou no Ministério da Educação e Saúde, participando da institucionalização do Departamento Nacional da Criança e da Sociedade Pestalozzi do Brasil. Ainda no Rio de Janeiro, lançou os fundamentos do Centro de Orientação Juvenil – COJ, para atendimento a adolescentes com problemas de conduta. De volta a Minas Gerais, obteve, em 1951, a cidadania brasileira, reassumindo, em meados da década de 1950, suas funções de catedrática de Psicologia Educacional na Faculdade de Filosofia da UMG. Aposentou-se compulsoriamente do cargo de professora catedrática de Psicologia Educacional da Faculdade de Filosofia em 1963.

Em 1956, no Instituto Superior de Educação Rural – ISER, que fora fundado na Fazenda do Rosário, Helena Antipoff promoveu a vinda do psicólogo genebrino André Rey, para ministrar um curso de pós-graduação em Psicologia Experimental. André Rey era especialista em exames clínicos e neurológicos de crianças e adultos, e seu curso abordou não somente esses temas, mas também questões relacionadas ao ensino da Psicologia nos Cursos Normais. O curso de André Rey deu origem a um dos primeiros grupos de psicólogos profissionais em Minas Gerais, que fundara a Sociedade Mineira de Psicologia. Foi André Rey quem propôs a fundação da Sociedade e presidiu sua primeira reunião preparatória, sugerindo que a mesma fosse dedicada a estudos de questões psicossociológicas de interesse para o Brasil. A idéia da fundação da entidade foi acolhida pelos participantes do curso e culminou com a inauguração, no ano seguinte, da Sociedade Mineira de Psicologia. Sua sede provisória era na Faculdade de Filosofia da UMG e sua primeira diretora, Helena Antipoff.

Enquanto se engajava nessas atividades em Minas Gerais e no Rio de Janeiro, Helena Antipoff elaborou o teste “Minhas Mãos” (ou teste “MM”), um instrumento para o diagnóstico da estrutura da personalidade a partir da análise de conteúdo de uma redação que deveria ter como tema “Minhas Mãos”. Inspirado em propostas de Alfred Binet, Bertrand e Alexander Lazursky e publicado em 1970, pela editora CEPA, o teste, segundo Helena Antipoff, vinha sendo idealizado desde a década de 1930, tendo sido usado como teste de personalidade quando trabalhara no COJ e divulgado em diversos eventos científicos nas décadas de 1940 e 1950 (ANTIPOFF, H., 1992, v.1, p.335-368).

Da década de 1950 em diante, Helena Antipoff passou a se dedicar principalmente à expansão da Fazenda do Rosário. Enfatizando a necessidade de integrar as crianças da Fazenda à sociedade e de levar à comunidade de Ibirité os benefícios da Escola, promoveu a criação de diversas instituições dedicadas à educação especial, à educação rural, à criatividade e à superdotação: Escolas Reunidas Dom Silvério (ensino primário), Clube Agrícola João Pinheiro (ensino e experimentação de técnicas agrícolas), Ginásio Normal Oficial Rural Sandoval Azevedo (com internato para moças), Ginásio Normal Oficial Rural Caio Martins (com internato para rapazes), Instituto Superior de Educação Rural (cursos de treinamento para professores rurais). Essas instituições viriam a compor o Complexo Educacional da Fazenda do Rosário e contribuir para a formação de várias gerações de educadores e psicólogos.

Helena Antipoff publicou diversos artigos em revistas especializadas, os quais, em 1992, o Centro de Documentação e Pesquisa Helena Antipoff reuniu nos cinco volumes da Coletânea das obras escritas de Helena Antipoff. Nessa publicação, que conta com uma introdução feita por Daniel Antipoff, os artigos da psicóloga vêm divididos em grandes temas e apresentados, dentro de cada tema, em ordem cronológica. Os temas dos cinco volumes são “Psicologia Experimental”, “Fundamentos da Educação”, “Educação do Excepcional”, “Educação Rural” e “A Educação do Bem-dotado”.

Ao longo de sua carreira de psicóloga e educadora no Brasil, Helena Antipoff recebeu, em reconhecimento à relevância de suas propostas e iniciativas, inúmeros prêmios e condecorações. Dentre estes, destacam-se: Medalha de Honra ao Mérito pelo seu “Apostolar Trabalho na Educação da Criança Anormal”, em 1959; Inscrição no Livro Nacional do Mérito, por proposta da Associação Brasileira de Educação, em 1960; Cidadã Honorária de Minas Gerais, em 1962; Cidadã Honorária de Belo Horizonte, em 1968; Professora Emérita da Faculdade de Educação da UFMG, em 1972; Medalha do Mérito Educativo, em 1972; Personalidade Global no setor Educação, em 1973; e Prêmio Henning Albert Boilesen, em 1973, por serviços prestados à educação e à ciência no Brasil. Os recursos desse último prêmio foram utilizados para estabelecer a Associação Milton Campos para o Desenvolvimento das Vocações – ADAV, considerada a “obra caçula de Helena Antipoff”, visando a promoção de atividades estimulantes para crianças com interesse em profissões científicas ou artísticas.

Publicações:

ANTIPOFF, Helena. O Teste As Minhas Mãos. In: CENTRO DE DOCUMENTAÇÃO E PESQUISA HELENA ANTIPOFF. Psicologia experimental.Belo Horizonte: Imprensa Oficial, 1992. p.335-368. (Coletânea das obras escritas de Helena Antipoff , v.1).

Fontes:

ANTIPOFF, Daniel. Helena Antipoff: sua vida, sua obra. Rio de Janeiro: José Olympio, 1975.

CAMPOS, Regina Helena de Freitas. Conflicting interpretations of intellectual abilities among Brazilian psychologists and their impact on primary scholling (1930-1960). 1989. 322 f. Tese (PhD) – Faculdade de Educação, Universidade de Stanford, Stanford, Califórnia.

CAMPOS, Regina Helena de Freitas. Helena Antipoff. In: FÁVERO, Maria de Lourdes Albuquerque, BRITTO, Jader de Medeiros. Dicionário de Educadores. Rio de Janeiro: Editora UFRJ / MEC-Inep, 1999. p.237-243.

CAMPOS, Regina Helena de Freitas. Helena Antipoff (1892-1974): a synthesis of Swiss and Soviet psychology in the context of Brazilian education. History of Psychology (no prelo).

CENTRO DE DOCUMENTAÇÃO E PESQUISA HELENA ANTIPOFF. Psicologia Experimental. Belo Horizonte: Imprensa Oficial, 1992. (Coletânea das obras escritas de Helena Antipoff, v.1).

CENTRO DE DOCUMENTAÇÃO E PESQUISA HELENA ANTIPOFF. Fundamentos da Educação. Belo Horizonte: Imprensa Oficial, 1992.(Coletânea das obras escritas de Helena Antipoff, v.2).

CENTRO DE DOCUMENTAÇÃO E PESQUISA HELENA ANTIPOFF. Educação do Excepcional. Belo Horizonte: Imprensa Oficial, 1992.(Coletânea das obras escritas de Helena Antipoff, v.3).

CENTRO DE DOCUMENTAÇÃO E PESQUISA HELENA ANTIPOFF. Educação Rural. Belo Horizonte: Imprensa Oficial, 1992. (Coletânea das obras escritas de Helena Antipoff, v.4).

CENTRO DE DOCUMENTAÇÃO E PESQUISA HELENA ANTIPOFF. A Educação do Bem-dotado. Rio de Janeiro: SENAI/DN/DPEA, 1992. (Coletânea das obras escritas de Helena Antipoff, v.5).

LOURENÇO, Érika. Educação inclusiva: uma contribuição da história da psicologia. Psicologia: Ciência e Profissão, Brasília, v.20, n.1, p.24-29, 2000.

MURCHISON, Carl (Ed.). Antipoff, Hélène. In: ______. The psychological register. London: Humphrey Milford: Oxford University Press, 1929. p.541.

SOCIEDADE MINEIRA DE PSICOLOGIA. Estatutos. Belo Horizonte, 1957.

Regina Helena de Freitas Campos
Érika Lourenço

Fonte: Dicionário biográfico da psicologia no Brasil: Pioneiros / Autor(a): Regina Helena de Freitas Campos (org.) Imago Editora – Rio de Janeiro – 2001 – 461 p.

Iracy Doyle

Iracy Doyle


DOYLE FERREIRA, Iracy (1911 – 1956)

Médica psiquiatra e psicanalista nascida no Rio de Janeiro. Após formar-se em Medicina no ano de 1935, pela Faculdade Nacional de Medicina da Universidade do Brasil, fez sua pós-graduação em psiquiatria infantil na Universidade Johns Hopkins, nos Estados Unidos. De volta ao Brasil, em 1943, fundou a Clínica de Repouso da Tijuca, nos mesmos moldes da prestigiosa clínica psiquiátrica Menninger de Topeka.

Em 1946, retorna aos Estados Unidos e faz sua formação em psicanálise no William Alanson White Institute de Nova Iorque, tendo realizado sua análise pessoal com Meyer Maskin e supervisão com Clara Thompson. Volta ao Brasil em 1949, torna-se livre-docente de psiquiatria da Universidade do Brasil e funda, em abril de 1953, o Instituto de Medicina Psicológica (atual Sociedade de Psicanálise Iracy Doyle, filiada à International Federation of Psychoanalytical Societies).

Como autora e professora, dedicou-se à divulgação e ao ensino da Psicanálise, destacando-se, nesse sentido, o seu livro O sentido do movimento psicanalítico, publicado em 1950. A “doutorinha”, como era carinhosamente conhecida, teve também destacada participação no trabalho com crianças, desde a década de 30, quando se tornou membro da Conferência Nacional de Proteção à Infância. Posteriormente, viria a ser uma das primeiras especialistas em psicanálise de crianças no Brasil.

Recusou-se a ingressar na International Psychoanalytical Association – IPA, mantendo-se como referência de autonomia e liberdade de pensamento em meio à ortodoxia oficial da IPA, que então prevalecia tanto no Rio de Janeiro como em São Paulo. Formou muitos alunos, entre os quais Horus Vital Brasil e Hélio Pellegrino, psicanalista importante para a consolidação de uma psicanálise engajada e com preocupações sociais no Brasil, nas décadas de 60 e 70. Em seu livro de 1952, Introdução à medicina psicológica, prefaciado por E. Myra e López, apresenta a Psicanálise como teoria e prática fundamentais para o desenvolvimento da Psiquiatria dinâmica.

Morreu prematuramente em 1956, em conseqüência de uma encefalite virótica, aos 45 anos, época em que se preparava para concorrer à cátedra de Psiquiatria da Faculdade Nacional de Medicina.

Publicações:

DOYLE, I. Introdução à medicina psicológica. Rio de Janeiro: Casa do Estudante do Brasil, 1952.

DOYLE, I. O sentido do movimento psicanalítico. Rio de Janeiro: Casa do Estudante do Brasil, 1950.

Fontes:

FREITAS, L.A. Pinheiro de. SPID/IMP: 45 anos de psicanálise, de 1953 a 1998. Rio de Janeiro, out. 1998. Trabalho apresentado nas comemorações dos 45 anos de fundação do Instituto de Medicina Psicológica.

ROUDINESCO, E.; PLON, M. Dicionário de psicanálise. Rio de Janeiro: J. Zahar, 1998.

Nelson Ernesto Coelho Junior

Fonte: Dicionário biográfico da psicologia no Brasil: Pioneiros / Autor(a): Regina Helena de Freitas Campos (org.) Imago Editora – Rio de Janeiro – 2001 – 461 p.

João Mohana

João Mohana


MOHANA, João Miguel (1925 – 1995)

Nasceu em Bacabal – Maranhão. Filho de uma família libanesa cristã, recebeu essa formação religiosa. Formou-se em Medicina pela Universidade Federal da Bahia em 1949, especializando-se em Pediatria.

Clinicou na cidade de São Luís, exercendo por vários anos suas atividades no Departamento Estadual da Criança. Foi educador sanitário da Campanha Nacional de Educação Rural junto à Missão Intermunicipal Rural Arquiodiocesana e atuou também na clínica particular. Em 1953 ingressa no Seminário Maior de Viamão em Porto Alegre – RS, ordenando-se sacerdote em julho de 1960 e retornando em seguida para a cidade de São Luís – MA.

Publica dois romances: O outro caminho (1968) e Maria da tempestade (1987), ambos premiados pela Academia Brasileira de Letras e traduzidos em vários países da Europa. Isso o fez conhecido e requisitado em todo o Brasil como conferencista para casais. Sua obra principal, A vida sexual dos solteiros e casados (1969), é o elo indispensável entre a sua obra de romancista e seu ensaísmo psicanalítico-religioso. Escreveu outro importante livro, Sofrer e amar: psicologia e teologia do sofrimento (1973). Como sacerdote, participou da Juventude Autêntica Cristã – JUAC. A cultura é tema de seu último livro: Diga não ao imperialismo cultural, publicado no Ano Internacional da Juventude, em 1985, em que propõe uma leitura da realidade e dos mecanismos ideológicos que se infiltram na religião, na política e na sociedade brasileira, oferecendo pistas para que os jovens, recusando a condição de objetos, possam transformar-se em sujeitos na construção de uma sociedade. Mohana não se limitou a escrever sobre assuntos religiosos, mas também sobre literatura, teatro, música, cinema e cultura, em mais de quarenta títulos. Embora não fosse psicólogo, foi marcante a sua participação nessa área. Sua psicologia pode ser caracterizada como uma psicologia “da salvação”, que abre caminho para a realização ontológica no sentido de que o homem restabeleça o seu encontro. Na sua obra Plenitude humana (1983), discute a realização pessoal como ponto-chave para o restabelecimento da paz interior.

Através de seminários, conferências e sessões de aconselhamento, pregava uma psicologia baseada em sua reflexão sobre a vida. Ensinava que a adversidade, as neuroses, as dores são como nuvens escuras mas passageiras, e que devem ser tratadas dessa forma; afirmava que o homem abraçou valores transitórios em detrimento de valores eternos, o que fez com que mergulhasse na angústia, na depressão – enfim, o tédio da vida, a perda do significado da existência. Contempla uma psicologia iluminada pela fé e que indaga sobre a incerteza e a dúvida do homem perplexo diante de si e do mundo. Suas obras foram reeditadas inúmeras vezes. Faleceu em São Luís – MA.

Publicações:

MOHANA, João Miguel. A vida sexual dos solteiros e casados. 12. ed. Porto Alegre: Globo, 1969.

MOHANA, João Miguel. Diga não ao imperialismo cultural. São Paulo: Loyola, 1985.

MOHANA, João Miguel. Maria da tempestade. 8. ed. Rio de Janeiro: Agir, 1987.

MOHANA, João Miguel. O outro caminho. 7. ed. Rio de Janeiro: Agir, 1968.

MOHANA, João Miguel. Plenitude humana. 3. ed. Porto Alegre: Globo, 1983.

MOHANA, João Miguel. Sofrer e amar: psicologia e teologia do sofrimento. 12. ed. Rio de Janeiro: Agir, 1973.

Márcia Antonia Piedade Araújo
Manoel William Ferreira Gomes
Ana Maria Jacó-Vilela

Fonte: Dicionário biográfico da psicologia no Brasil: Pioneiros / Autor(a): Regina Helena de Freitas Campos (org.) Imago Editora – Rio de Janeiro – 2001 – 461 p.

Juliano Moreira

Juliano Moreira


MOREIRA, Juliano (1873 – 1933)

Nasceu em Salvador. Aos 13 anos de idade, matriculou-se como interno na Faculdade de Medicina da Bahia, adquirindo o grau de doutor em 1891, com a tese Sífilis maligna precoce. Em 1896, ingressou na mesma faculdade como professor substituto da Seção de Doenças Nervosas, após defender a dissertação Disquinesias arsenicais. Nesse período, dedicou-se à dermatologia e à neuropsiquiatria, colaborou nos periódicos Gazeta Médica da Bahia, Revista Médico-Legal e ajudou na fundação da Sociedade de Medicina Legal da Bahia. Em 1899, como catedrático da Faculdade de Medicina da Bahia, realizou conferência em que divulgava as idéias de Freud, sendo considerado por vários estudiosos como o precursor da psicanálise no Brasil, ao mesmo tempo que adepto e difusor da psiquiatria alemã.

A rotina desregrada pela dedicação intensiva aos estudos fez com que contraísse tuberculose, o que o levou a buscar tratamento na Europa. Até 1902, freqüentou diversos cursos de doenças mentais, fez estágio de anatomia patológica e conheceu as principais clínicas psiquiátricas e manicômios da Alemanha, Inglaterra, Escócia, Bélgica, França, Itália, Áustria e Suíça. Voltando ao Brasil, instalou-se no Rio de Janeiro e, por influência de Afrânio Peixoto e J.J. Seabra, foi nomeado diretor do Hospital Nacional de Alienados, em 1903. No período em que esteve na direção desse hospital (1903-1930), Juliano Moreira defendeu a reformulação da assistência psiquiátrica pública, tanto no âmbito legislativo quanto assistencial. Incentivou a promulgação da primeira lei federal de assistência aos alienados (1903), ao mesmo tempo em que sugeriu novos formatos institucionais e de tratamento para a doença mental, a exemplo do que conhecera na Europa, como os hospitais-colônias e a assistência hetero-familiar. Em 1911, foi nomeado diretor da Assistência a Psicopatas, decorrendo de sua gestão a criação do Manicômio Judiciário e a aquisição do terreno para construção da futura Colônia Juliano Moreira.

Como divulgador de uma psiquiatria científica brasileira, fundou, em 1905, os Archivos Brasileiros de Medicina, juntamente com Antônio Austregésilo e E. Lopes e, no mesmo ano, com Afrânio Peixoto, criou a Sociedade Brasileira de Psychiatria, Neurologia e Sciencias Affins. Participou, entre 1908 e 1910, juntamente com Carlos Eiras, Henrique Roxo e Afrânio Peixoto, de comissão da Sociedade Brasileira de Psiquiatria, Neurologia e Medicina Legal encarregada de estabelecer uma classificação psiquiátrica. O trabalho dessa comissão foi oficializado no relato que Juliano Moreira fez atendendo às solicitações da Repartição Geral de Estatística em 1910, no qual se evidenciavam as influências da classificação psiquiátrica de Kraepelin. Foi também presidente de honra, entre outros, da Liga Brasileira de Higiene Mental quando de sua fundação em 1923. Em 1928 é criada a seção Rio da Sociedade Brasileira de Psicanálise, com Juliano Moreira como presidente e Júlio Porto-Carrero como secretário geral.

No contexto internacional, participou de diversos congressos médicos, como o de Lisboa (1906), Amsterdã e Milão (1907), Londres e Bruxelas (1913), e foi membro de várias sociedades científicas européias. Em 1928 foi conferencista convidado das Universidades japonesas de Tokyo, Kyoto, Sendai e Osaka, sendo condecorado com a Ordem do Tesouro Sagrado pelo Imperador Hirohito (1901-1992).

Fontes:

LOPES, José L. Juliano Moreira. Jornal Brasileiro de Psiquiatria. v. 13, n.1, 1964.

MOKREJS, Elizabete. A psicanálise no Brasil: as origens do pensamento psicanalítico. Petrópolis: Vozes, 1993.

MOKREJS, Elizabete. Classificações em medicina mental. Archivos Brasileiros de Neuriatria e Psychiatria, anno 1, 1º trimestre, 1919.

MOKREJS, Elizabete. Culpabilidade dos sifilíticos que se casam. Revista Médico Legal, n. 1, 1895.

MOKREJS, Elizabete. Dados sobre a psychologia objectiva dos indios brasileiros. Archivos Brasileiros de Psychiatria, Neurologia e Medicina Legal, anno 13, 1917.

MOKREJS, Elizabete. Falsos testemunhos por desvios mentais. Archivos Brasileiros de Psychiatria, Neurologia e Medicina Legal, v. 8, 1912.

MOKREJS, Elizabete. Quaes os melhores meios de assistência a alienados? Archivos Brasileiros de Psychiatria, Neurologia e Medicina Legal, anno VI, v. 1/2, p. 373-396, 1910.

MOKREJS, Elizabete. Querelantes e pseudo-querelantes. Archivos Brasileiros de Psychiatria, Neurologia e Medicina Legal, v. 4, n. 1/2, 1908.

MOKREJS, Elizabete; PEIXOTO, A. A paranoia e os syndromas paranoides. Archivos Brasileiros de Psychiatria, Neurologia e Sciencias Affins, anno 1, n.1, 1905.

MOKREJS, Elizabete; PEIXOTO, A. Les maladies mentales dans les climats tropicaux. Archivos Brasileiros de Psychiatria, Neurologia e Sciencias Affins, anno 2, n. 1, 1906.

PERESTRELLO, M. Primeiros encontros com a psicanálise: os precursores no Brasil (1899-1937). In: FIGUEIRA, Sérvulo (Org.). Efeito Psi: a influência da psicanálise. Rio de Janeiro: Campus, 1988.

PORTOCARRERO, Vera M. Juliano Moreira e a descontinuidade histórica da psiquiatria. 1980. Dissertação (Mestrado) – Departamento de Filosofia, Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro.

Ana Teresa A. Venancio

Fonte: Dicionário biográfico da psicologia no Brasil: Pioneiros / Autor(a): Regina Helena de Freitas Campos (org.) Imago Editora – Rio de Janeiro – 2001 – 461 p.

Lucilia Tavares

Lucilia Tavares


TAVARES, Lucilia

No Laboratório de Psychologia da Colônia de Psychopathas do Engenho de Dentro, que funcionou de 1923 a 1932, sob a direção do psicólogo polonês Waclaw Radecki (1887-1953), atuaram diversos profissionais homens (médicos, advogados, filósofos) e duas mulheres: sua esposa Halina Radecka (1897-1980) e Lucília Tavares. Pouco se conhece sobre esta última, autora do que até agora se conhece como o primeiro livro de psicologia publicado no Brasil por uma mulher: “Psychologia do Pensamento”, de 1930 (TAVARES, 1930).

Lucilia Tavares era professora municipal, indicada pela Diretoria Geral de Instrução Pública ¿ o órgão responsável por Educação no Distrito Federal, na República Velha ¿ para ser assistente de Radecki no Laboratório. No período em que ali esteve, Lucilia desenvolveu trabalhos sob orientação de Radecki, que resultaram, além do livro citado, em um artigo em coautoria com o diretor do Laboratório, “Contribuição experimental à psychologia dos juízos”, de 1928 (TAVARES & RADECKI, 1928) e um artigo de divulgação intitulado “À margem da Psychologia” (TAVARES, 1931), publicado no “Jornal do Commercio” do Rio de Janeiro.

As (poucas) informações disponíveis indicam que lá trabalhou de alguma data a partir de 1924 até 1932, quando o Laboratório foi transformado em Instituto de Psicologia, no qual existiu a primeira proposta de formação superior de psicólogos no Brasil, elaborada por Radecki. Lucilia integrava o corpo docente do Instituto, responsável pela cadeira de “Metodologia do trabalho experimental em Psicologia” (CENTOFANTI, 1982). Entretanto, ainda em 1932, por ingerências externas (a saber, pressões de setores médicos e católicos), o Instituto foi fechado, não chegando a iniciar sua proposta de formação superior.

Entretanto, tal relevância da atuação de Lucilia é proporcional à sua obscuridade. Lucilia é uma personagem tão pioneira quanto enigmática. Até mesmo suas datas de nascimento e morte são desconhecidas. Foi possível levantar poucas informações sobre ela, além de sua atuação no Laboratório da Colônia de Psychopatas.

Por exemplo, sabe-se que Lucília, juntamente com outros quatro assistentes de Radecki (Halina Radecka, Nilton Campos, Ubirajara da Rocha e Arauld Bretas) enviaram trabalhos para inscrição em um concurso da Escola Normal do Rio de Janeiro em 1930, que acabou sendo cancelado, tendo a cadeira ficado com Plínio Olinto, que lá já estava desde 1916.

Em relatório comemorativo dos dez anos do Centro de Orientação Juvenil ¿ COJ (BRASIL, 1956), Lucilia Tavares consta em uma lista de técnicos que colaboraram com supervisão e complementação aos cursos de Emilio Mira y López sobre Orientação e Seleção Profissional no Departamento de Administração do Serviço Público (DASP) e de Psicoterapia Menor na Fundação Getúlio Vargas (FGV), na década de 1940. Isto indica que, após o fechamento do Instituto de Psicologia, Lucília permaneceu atuando na psicologia, como uma das mulheres que contribuíram no processo de autonomização da área no Brasil.

As primeiras décadas do século XX assistiram à institucionalização da participação feminina no mercado de trabalho, principalmente na Educação. A busca por uma modernização do país, através da educação, tornou-se o argumento para as mulheres terem mais acesso à educação. Educadas para serem melhores mães e esposas, esse lugar como educadoras da família possibilitou às moças de classe média e alta saírem de casa e ocuparem os primeiros espaços profissionais como professoras primárias. (Jacó-Vilela, Degani-Carneiro & Messias, 2009). Lucilia Tavares não é, pois, exceção nesse contexto; mas o fato de ser a primeira mulher a atuar em um espaço prioritariamente masculino ¿ um laboratório localizado em um hospital ¿ e a data longínqua em que isso ocorreu (décadas de 1920 e 1930) despertam o interesse. O que levaria uma jovem professora, presumivelmente de “boa família”, a sair do ambiente escolar e ir trabalhar em uma área de saber ainda desconhecida, emergente e em um ambiente de trabalho quase exclusivamente masculino?

Sua trajetória, portanto, evidencia alguns traços do paradigma do interesse das pioneiras da Psicologia no Brasil: em sua grande maioria, possuíam formação como professoras nas já existentes Escolas Normais, onde entravam em contato com o saber psicológico tanto em seu aspecto teórico quanto prático ¿ notadamente, os testes psicológicos. Desta forma, a inserção das mulheres na Psicologia ocorreu essencialmente através de questões pedagógicas, como a educação, a aprendizagem e o desenvolvimento infantil.

Fontes:

BRASIL. Ministério da Saúde. Departamento Nacional da Criança. O Centro de Orientação Juvenil (1946-1956). Rio de Janeiro: MS, 1956. (Coleção N.N.Cr. nº 155).

CENTOFANTI, R. Radecki e a psicologia no Brasil. Psicologia: Ciência e Profissão, Brasília, Ano 3, n. 1, p. 2-50, 1982.

Jacó-Vilela, a. m., Degani-Carneiro, f. & Messias, m. c. n. A mulher na história da Psicologia no Brasil: resgatando Lucilia Tavares. In: LOURENÇO, E., GUEDES, M. C. & CAMPOS, R. H. F. Patrimônio cultural, museus, psicologia e educação: diálogos. Belo Horizonte: Ed. PUC Minas, 2009, p. 171-184.

TAVARES, L.; RADECKI, W. Contribuição experimental à psychologia dos juízos. in: ANNAES da Colônia de Psychopatas em Engenho de Dentro. Rio de Janeiro, 1928. p. 245-

TAVARES, L. Psychologia do pensamento: ensaio crítico e analytico baseado no systema do discriminacionismo affetivo de Radecki. Rio de Janeiro: Laboratório da Colônia de Psychopatas do Engenho de Dentro, 1930.

TAVARES, L. À margem da psychologia. Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 1 mar.1931. p. 12.

Ana Maria Jacó-Vilela
Filipe Degani-Carneiro
Maria Cláudia Novaes Messias

Fonte: Pioneiras da Ciência – CNPQ

Lygia Amaral

Lygia Amaral


ALCÂNTARA AMARAL, Lygia (1911 – )
Nasceu em São Paulo. Psicanalista, não-médica de formação. Normalista da Escola Normal de São Paulo em 1928. Formada em 1932 na Faculdade de Higiene de São Paulo. Após cinco anos de estudos e atividades clínicas, recebeu o Certificado do Serviço de Higiene Mental, conferido pelo Dr. Durval Marcondes. Estudou no Instituto Paula Souza, que oferecia uma formação geral para educadoras sanitárias – era o que se chamava “visitadora psiquiátrica”.

Em 1945, ingressou no Grupo Psicanalítico de São Paulo, fazendo análise didática com a Dra. Adelheid Koch. Em 1951, já como membro, pleiteou uma bolsa de seis meses para estudar psicanálise em Londres, em função do seu trabalho na “Clínica de Orientação Infantil”, organizada pelo Dr. Durval Marcondes. Acompanhou, nesse mesmo ano, a Dra. Adelheid Koch ao Congresso Internacional de Amsterdã, a fim de que fosse feito o pedido de reconhecimento do Grupo de Psicanálise de São Paulo, para Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo – SBPSP. Nesses seis meses, teve contato com Anna Freud, Melanie Klein, D. Winnicott, Hanna Segal, Esther Bick, Isabel Menzies, Martha Harris e Francis Tustin. Teve como supervisores Beth Joseph e Hans Thorner.

No Brasil, posteriormente, submeteu-se a reanálises com Frank Philips e, durante um mês, com o Dr. Wilfred Bion, quando esteve em Brasília, em 1979. Em 1959, passou a analista didata e teve uma participação ativa na estruturação do curso de formação de analistas de crianças em 1978, sendo professora da primeira turma. Na segunda metade dos anos 50, lecionou no Curso de Psicologia Clínica da Cadeira de Filosofia da Universidade de São Paulo – USP, organizado pelo Dr. Durval Marcondes e a Dra. Anita Castilho Marcondes Cabral.

A atividade mais importante da Profª. Lygia de Alcântara Amaral foi o trabalho pioneiro de análise de criança em São Paulo, com a colega Profª Virgínia Leone Bicudo, igualmente normalista e “visitadora psiquiátrica social”. Ambas trabalharam no atendimento de crianças do Serviço de Saúde Escolar do Instituto de Higiene Pública de São Paulo. Posteriormente, prestaram enorme contribuição ao criar o curso de formação de analistas de criança no Instituto de Psicanálise de São Paulo e a possibilidade de atendimento psicanalítico para crianças. Lygia Amaral foi a pioneira em São Paulo, introduzindo a análise de criança e a observação mãe/bebê, a partir da abordagem kleiniana. Publicou alguns artigos na Revista Brasileira de Psicanálise.

Publicações:

AMARAL, Lygia Alcântara. Entrevista: uma passagem com Bion. Revista Percurso, [s.d.].

Fontes:

AMARAL, Lygia Alcântara. Depoimento. São Paulo, [1989]. 1 cassete: VHS. Depoimento concedido a Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo para elaboração do Projeto Memória.

Arquivos da Sociedade de Psicanálise de São Paulo. Dados pessoais e currículos dos membros.

BARCELOS, R. Algumas anotações biográficas da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo. São Paulo, 1976. (Mimeogr.).

CARVALHO, Cíntia Ávila de. Os psiconautas do Atlântico Sul: uma etnografia da psicanálise. Campinas: UNICAMP, 1998.

GALVÃO, L. A. P. Notas para a história da psicanálise em São Paulo. Revista Brasileira de Psicanálise, v.1, n.1, 1967.

MOKREJS, Elisabete. A psicanálise no Brasil: as origens do pensamento psicanalítico. Petrópolis: Vozes, 1993.

NOSEK, Leopold (Org.). Álbum de família: imagens, fontes e idéias da psicanálise em São Paulo. São Paulo: Casa do Psicólogo, 1994.

OLIVEIRA, Carmen Lúcia Montechi Valladares de. A implantação do movimento psicanalítico na cidade de São Paulo. 2000. Texto debatido em um dos grupos dos Estados Gerais da Psicanálise. Disponível em: <http://www.geocities.com/HotSprings/Villa/3170/CarmenLuciaValadares.htm>. Acesso em: fev. 2001.

ROUDINESCO, Elisabeth; PLON, Michel (Org.). Dicionário de psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998.

SAGAWA, Roberto Yutaka. A construção local da psicanálise. Marília: Ed. Interior/ Psicanálise, 1996.

SAGAWA, Roberto Yutaka. A história da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo. In: NOSEK, Leopold (Org.). Álbum de família: imagens, fontes e idéias da psicanálise em São Paulo. São Paulo: Casa do Psicólogo, 1994.

SAGAWA, Roberto Yutaka. A psicanálise pioneira e os pioneiros da Psicanálise em São Paulo. In: FIGUEIRA, Sérvulo A. (Org.). Cultura da Psicanálise. São Paulo: Brasiliense, 1985.

SAGAWA, Roberto Yutaka. Os inconscientes no divã da história. 1989. Dissertação (Mestrado) – Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Estadual de Campinas, Campinas.

SAGAWA, Roberto Yutaka. Redescobrir as psicanálises. São Paulo: Lemos, 1992.

SÉRIO, Nádia Maria Ferreira. Reconstruindo “Farrapos”: a trajetória histórica da SPRJ: instituição e poder. 1998. Tese (Doutorado em História) – Universidade Federal Fluminense, Niterói.

Marina Massi

Fonte: Dicionário biográfico da psicologia no Brasil: Pioneiros / Autor(a): Regina Helena de Freitas Campos (org.) Imago Editora – Rio de Janeiro – 2001 – 461 p.

Madre Cristina

Madre Cristina


MADRE CRISTINA – Célia Sodré Dória (1916 – 1997)

Natural de Jaboticabal, faz o curso médio em São Paulo no Colégio Des Oiseaux. Em 1940, termina o bacharelado e licenciatura nos cursos de Pedagogia e Filosofia da Faculdade de Filosofia Sedes Sapientiae. Torna-se professora de Psicologia no curso de Pedagogia em 1941. Em 1942, na congregação das Cônegas de Santo Agostinho, faz seus votos, passando a ser conhecida como Madre Cristina.

Convidada para coordenar o curso de Pedagogia, inicia sua contribuição para a difusão da Psicologia. Substitui extra-oficialmente várias disciplinas pedagógicas por: Psicologia Evolutiva, Psicologia da Personalidade, Psicologia Diferencial, Psicopatologia. Inicia atividades clínicas com os alunos desse curso na área de psicopedagogia, diagnóstico, orientação vocacional, orientação de pais. Em l952, Madre Cristina conclui seu doutoramento em Pedagogia na própria instituição, com a tese Psicodinamismo do ajustamento da personalidade. No ano de 1953, cria o primeiro curso de Psicologia Clínica. Era um curso teórico-prático, que durava três anos. Os alunos atendiam uma criança, supervisionados por um professor. O currículo do curso era aberto. Profissionais que haviam feito especializações fora do país eram convidados a ministrar disciplinas. Tanto nessa situação, quanto nas outras experiências posteriores, Madre Cristina mantém a característica de dar abertura a diferentes perspectivas da psicologia. Nesse sentido, facilitou o conhecimento e o desenvolvimento de Ludoterapia, Psicanálise (diversificando a proposta de Psicanálise da Sociedade Brasileira de Psicanálise), Psicodrama, Gestalt-terapia, Psicodrama, Terapia Reichiana, Abordagem junguiana, Psicomotricidade, Psicoterapia Breve, Cinesiologia, Psicopedagogia, Psicodinâmica, Psicossomática. Percorreu a França, os Estados Unidos e a Suíça, efetuando estágios e cursos de especialização. Criou um espaço para discutir e favorecer alguns encaminhamentos para crianças excepcionais, filhos de pessoas que posteriormente fundaram associações que promovem até hoje trabalhos com excepcionais, como a Associação de Pais e amios do Excepcional.

Em 1953, o trabalho ludoterapêutico na clínica passa a ser mais sistematizado. Foi ampliado o espaço da clínica psicológica infantil, dirigida basicamente a pessoas que não pudessem pagar. Paralelamente a essas experiências, ainda na década de 50 ela participou dos embates travados para a regulamentação da profissão, após a qual inicia um período de transformações em seu projeto.O curso regular de Psicologia é montado nos mesmos moldes do curso já existente de Psicologia Clínica. A implantação desse curso, em 1964, dá-se paralelamente à tomada de poder pelos militares. Sua ação é canalizada para se contrapor a esse processo político e ela usa os contextos possíveis para que isto venha a ocorrer. A partir de então, ela vincula a Psicologia à política. Considerava importante que os alunos tivessem uma preocupação com os problemas sociais e políticos. Apoiou e deu assistência a militantes, presos políticos, torturados, parentes de perseguidos e estimulou os que trabalhavam no Sedes para que fizessem o mesmo.

Em 1975, com a passagem dos cursos regulares da antiga faculdade para a Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, um novo espaço é criado, o Instituto Sedes Sapientiae, onde a Psicologia se faz representar em diferentes cursos de especialização. Os professores de todas as áreas que trabalharam tanto na Faculdade quanto no Instituto relatam os esforços feitos para adaptar suas teorias e técnicas aos clientes vítimas do período político, assim como sua preocupação em democratizar o atendimento psicológico para a população de baixa renda. Em 1995, em entrevista realizada pelo Jornal do Conselho Regional de Psicologia 6a Região, Madre Cristina manifesta sua preocupação com o futuro da Psicologia, considerando importante que novos fenômenos, como os parapsicológicos, pudessem ser estudados cientificamente.

Publicações:

DÓRIA, Madre Cristina Sodré. Amor, sexo, segurança. [Ijuí]: Editora da Faculdade de Ijuí, 1967.

DÓRIA, Madre Cristina Sodré. Características masculinas e femininas de personalidade. Revista da PUC de São Paulo, 1959.

DÓRIA, Madre Cristina Sodré. Considerações sobre o significado da angústia. Revista de Psicologia Normal e Patológica, v. 1, p. 294-301, abr./jun. 1955.

DÓRIA, Madre Cristina Sodré. Critérios para uma definição normal. Revista de Psicologia Normal e Patológica, v. 5, n. 1/2, p. 58-63, 1959.

DÓRIA, Madre Cristina Sodré. Educando nossos filhos. São Paulo: Sedes Sapientiae, 1983.

DÓRIA, Madre Cristina Sodré. Formação do psicólogo e regulamentação da profissão. Boletim de Psicologia, v. 5/6, n. 18/19/20, p. 61-63.

DÓRIA, Madre Cristina Sodré. Personalidade e Família. São Paulo: Sedes Sapientiae, 1968.

DÓRIA, Madre Cristina Sodré. Posição da orientação educacional da escola secundária.[S.l]: Ministério da Educação, 1961

DÓRIA, Madre Cristina Sodré. Psicologia Científica Geral. São Paulo: Agir,1982.

DÓRIA, Madre Cristina Sodré. Psicologia do Ajustamento neurótico. Petrópolis: Vozes, 1974.

DÓRIA, Madre Cristina Sodré. Psicologia educacional. [Ijuí]: Editora da Faculdade Ijuí, 1961.

DÓRIA, Madre Cristina Sodré. Psicopatologia. São Paulo: Sedes Sapientiae, 1958.

DÓRIA, Madre Cristina Sodré. Reforma Universitária. Comissão Parlamentar de Inquérito. Diário do Congresso Nacional, [Brasília], 29 de nov. 1967. Suplemento 26.

Fontes:

ADEUS, Madre Cristina. Jornal do CRP, São Paulo, nov./dez. 1997.

CARVALHO, Consuelo de Assis. Depoimento. [S.l.], [2000]. Consuelo de Assis Carvalho -aluna do curso de Pedagogia e do primeiro curso de Psicologia clínica, Professora desse curso e de cursos de especialização no Instituto Sedes Sapientiae.

CASTANHO, Marisa Irene; CALEJON, Laura Marisa. Depoimento. [S.l.], [2000]. Marisa Irene Castanho, Laura Marisa Calejon – alunas do curso regular de Psicologia, antes de o mesmo ser incorporado à PUC/SP.

CESARINO, A. C. A lição de Madre Cristina. Pastorais, 10 dez. [199-].

GRUNSPUM Haim. Depoimento. [S.l.], [2000]. Haim Grunspum – médico, professor do primeiro curso de Psicologia clínica, Diretor da clínica infantil, Membro do Conselho do Instituto Sedes Sapientiae.

INSTITUTO SEDES SAPIENTIAE. Histórias e memórias. São Paulo, 1998. Material de circulação interna.

MEMÓRIA viva: Madre Cristina. Psicologia, Ciência e Profissão, São Paulo, v. 4, n. 2, 1984.

SASS, O. Madre Cristina: uma pioneira da Psicologia. Jornal do CRP, São Paulo, v. 14, n. 91, jan./fev. 1995.

SCHMIDT, M. L. Madre Cristina: um instrumento de transformação. Percurso, v. 2, n.4, 1o semestre 1990.

Marisa Todescan Dias da Silva Baptista

Fonte: Dicionário biográfico da psicologia no Brasil: Pioneiros / Autor(a): Regina Helena de Freitas Campos (org.) Imago Editora – Rio de Janeiro – 2001 – 461 p.

Manoel Bomfim

Manoel Bomfim


BOMFIM, Manoel José do (1868 – 1932)

Nasceu em Sergipe. Formou-se na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro em 1890. Em 1898, ingressou no magistério, lecionando Educação Moral e Cívicana Escola Normal do Rio de Janeiro, na qual assumiu logo depois a cátedra de Pedagogia e Psicologia. Em 1902 foi a Paris com a finalidade de desenvolver seus estudos em Psicologia, tendo freqüentado o Laboratório de Psicologia anexo à Clínica Jouffroy, em Saint’Anne, e estudado com Georges Dumas e Alfred Binet, com quem planejou a instalação do primeiro Laboratório de Psicologia brasileiro, instalado em 1906 no Pedagogium, do qual foi diretor por quinze anos; poucas informações há sobre a produção desse laboratório, embora suas atividades sejam citadas nas obras publicadas pelo autor. De volta ao Brasil, foi nomeado diretor da Instrução Pública.

Autor de vasta obra, escreveu sobre História do Brasil e da América Latina, Sociologia, Medicina, Zoologia e Botânica, além de vários livros didáticos, dos quais alguns de Língua Portuguesa, em co-autoria com Olavo Bilac; em Psicologia e Educação escreveu Lições de pedagogia (1915) e Noções de psychologia (1916), obras utilizadas como suporte para suas aulas na Escola Normal; Pensar e dizer: estudo do symbolo no pensamento e na linguagem (1923), obra em que demonstra vasta cultura geral e domínio das mais importantes correntes de Psicologia na época; O methodo dos testes (1926) e Cultura do povo brasileiro (1932), além de outras publicações como: Critica à Escola Activa, O fato psychico, As alucinações auditivas do perseguido e O respeito à criança.

Sua obra escrita revela um pensador original e não articulado às idéias correntes na época; sua interpretação de Brasil apóia-se na análise histórica da colonização empreendida pela metrópole, na exploração e na espoliação das riquezas brasileiras, com conseqüências sobre as condições culturais do povo; assim, defende a expansão da educação pública como meio privilegiado para a construção de uma sociedade democrática, calcada na liberdade, que só poderia ser atingida pelo acesso de todos ao saber.

Suas concepções de Psicologia, fenômeno psicológico e método para seu estudo também seguem caminho diverso do corrente na época. Considera o fenômeno psicológico como eminentemente histórico-social, constituído nas relações entre consciências, mediatizadas pela linguagem, compreendida como produto e meio da socialização. Critica a pesquisa realizada em laboratório, considerando que a complexidade do psiquismo não seria passível de ser apreendida em condições tão restritas e artificiais; propõe o método interpretativo para o estudo do psiquismo, baseado no estudo das múltiplas manifestações humanas, no qual deveria ser incluído o estudo da história forjada pela humanidade ao longo do tempo, expressão maior da inteligência e fonte para sua compreensão. É possível dizer que Bomfim antecipou algumas idéias posteriormente correntes na Psicologia, como as de Vigotski e Piaget, assim como teria antecipado as idéias de Ernst Bloch e Antonio Gramsci em sua interpretação da sociedade. Entretanto, Bomfim permaneceu “esquecido” na historiografia brasileira, fenômeno esse que pode ser parcialmente explicado por suas diferenças e contraposição aos pensamentos hegemônicos da época.

Publicações:

BOMFIM, M. Lições de pedagogia. 3. ed. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1926.

BOMFIM, M. Noções de psychologia. Rio de Janeiro: Livraria Escolar, 1916.

BOMFIM, M. Pensar e dizer: estudo do symbolo no pensamento e na linguagem. Rio de Janeiro: Casa Electros, 1923.

Fontes:

ANTUNES, M.A. M. O processo de autonomização da psicologia no Brasil (1890 – 1930): uma contribuição aos estudos em História da Psicologia.1991. Tese (Doutorado em Psicologia Social) – Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo.

CABRAL, A. C. M. A psicologia no Brasil. Psicologia – Boletim [da] Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP, v. 119, n.3, p. 9-51. São Paulo, 1950.

LOURENÇO FILHO, M. B. A psicologia no Brasil. Arquivos Brasileiros de Psicologia Aplicada, Rio de Janeiro, v. 23, n.3, p.41-53, set. 1971.

PENNA, A. G. Apontamentos sobre as fontes e sobre algumas das figuras mais expressivas da psicologia na cidade do rio de Janeiro. In: TEXTOS do Centro de Pós-graduação em Psicologia. Rio de Janeiro: ISOP-FGV, 1985.

PESSOTTI, I. Dados para uma história da Psicologia no Brasil. Psicologia, São Paulo, ano 1, n. 1, p. 1-14, maio 1975.

PESSOTTI, I. Notas para uma história da Psicologia no Brasil. In: QUEM é o psicólogo Brasileiro. São Paulo: Edicon/CFP, 1988.

PFROMM NETTO, S. A psicologia no Brasil. In: FERRI, M. G.; MOTOYAMA, S. (Org.). História das Ciências no Brasil. São Paulo: EPU/EDUSP, 1979. v. 3. p. 235-276.

RIBEIRO, D. Manoel Bomfim, antropólogo. In: BOMFIM, M. A América Latina: males de origem. Rio de Janeiro: Topbooks, 1993.

Mitsuko Aparecida Makino Antunes

Fonte: Dicionário biográfico da psicologia no Brasil: Pioneiros / Autor(a): Regina Helena de Freitas Campos (org.) Imago Editora – Rio de Janeiro – 2001 – 461 p.

Maria Helena Mira

Maria Helena Mira


MIRA, Maria Helena Novaes (1926 – )

Nasceu no Rio de Janeiro – RJ. Licenciada em Letras Neolatinas pela Faculdade Santa Úrsula em 1946, iniciou sua formação em Psicologia no início dos anos 50 com o professor Mira y López, então diretor do Instituto de Seleção e Orientação Profissional – ISOP da Fundação Getúlio Vargas – FGV. Com mais de um diploma universitário (Psicologia do Desenvolvimento e Psicologia Escolar na Universidade de Genebra; Psicologia Social na Universidade de Paris V; Museus Histórico e Artístico, no Museu Nacional), diversas especializações e estágios realizados no Brasil, Europa, Estados Unidos e Canadá, começou a carreira de docente e pesquisadora sem jamais dar por encerrada a sua formação. Estudou com grandes expoentes da Psicologia: Piaget, Rey, Inhelder e Zazzo, na Europa, e manteve contatos com Anastasi, Ebel, Cronbach, McKinnon e Rogers, nos Estados Unidos. Visitou os principais centros e serviços de Psicologia europeus e americanos. Doutorou-se em Psicologia na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro – PUC-RJ em 1968 e fez a livre-docência na Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ em 1974, universidades nas quais exerce o magistério e a pesquisa desde 1960.

Sempre associou a ampliação do próprio horizonte teórico à diversificação da atividade profissional e à produção de novos conhecimentos. Suas experiências profissionais pioneiras redundaram em desdobramentos, especialmente no campo da Psicologia Escolar e da Aprendizagem. Participou da criação da Associação Brasileira Beneficente de Reabilitação – ABBR e iniciou ali um Serviço de Psicologia e Orientação. Participou também da criação do Serviço de Orientação Psicopedagógica, coordenado por Therezinha Lins de Albuquerque, na Escola Guatemala – escola experimental do Instituto Nacional de Estudos Pedagógicos – INEP, onde teve a oportunidade de conviver com o prof. Anísio Teixeira; no ISOP, participou da criação do Centro de Testes Psicológicos e Educacionais, que desenvolveu a primeira Bateria de Testes de Desenvolvimento Educacional padronizada no Brasil.

Dessas experiências resultaram inúmeros artigos publicados nos Arquivos Brasileiros de Psicologia Aplicada, o desenvolvimento de uma linha de pesquisa até então inédita no país, voltada para o diagnóstico e para o prognóstico escolar, a produção de um Glossário de termos psicológicos, a organização do livro Testes e medidas em educação. Seu conhecimento das técnicas de exame psicológico levou-a a colaborar com o Centro de Orientação Juvenil – COJ, órgão do Ministério da Saúde, coordenado por Elisa Dias Veloso. Na PUC-RJ, criou e implantou a disciplina Psicologia Escolar e Problemas da Aprendizagem. Colaborou com outras universidades, foi membro das Associações da área e liderou os estudos no campo da Psicologia Escolar no país.

Antecipou-se a outros pesquisadores no desenvolvimento da pesquisa da criatividade e da superdotação: participou da criação da Associação Brasileira para Superdotados – ABSD, da qual foi presidente durante dois períodos, assim como da pesquisa do idoso, especialmente no que diz respeito ao enfoque intergeracional. Essas atividades, tal como sua colaboração com órgãos governamentais – dentre os quais o Centro Nacional de Educação Especial – CENESP do Ministério da Educação, no qual foi responsável pelo planejamento dos processos de atendimento aos superdotados no Brasil – foram sistematicamente divulgadas através de publicações e participações em eventos científicos e culturais. Recebeu a Comenda “Ordem Nacional do Mérito Educativo”, em novembro de 2000.

Suas principais obras são: Psicologia escolar (1970), Psicologia da criatividade (1972), Adaptação escolar (1974), Psicologia da educação e prática profissional (1992), Psicologia do ensino-aprendizagem (1985), Desenvolvimento psicológico do superdotado (1979), Psicologia da 3ª Idade (1997) e Compromisso ou alienação frente ao próximo século (1999).

Publicações:

MIRA, Maria Helena Novaes. Adaptação escolar. Petrópolis: Vozes, 1974.

MIRA, Maria Helena Novaes. Compromisso ou alienação frente ao próximo século. Rio de Janeiro: NAU, 1999.

MIRA, Maria Helena Novaes. Desenvolvimento psicológico do superdotado. São Paulo: Atlas, 1979.

MIRA, Maria Helena Novaes. Glossário de termos psicológicos. Rio de Janeiro: Ed. FGV, 1975.

MIRA, Maria Helena Novaes. Psicologia da 3ª Idade. Rio de Janeiro: NAU, 1997.

MIRA, Maria Helena Novaes. Psicologia da criatividade. Petrópolis: Vozes, 1972.

MIRA, Maria Helena Novaes. Psicologia da educação e prática profissional. Petrópolis: Vozes, 1992.

MIRA, Maria Helena Novaes. Psicologia do ensino-aprendizagem. São Paulo: Atlas, 1985.

MIRA, Maria Helena Novaes. Psicologia escolar. Petrópolis: Vozes, 1970.

MIRA, Maria Helena Novaes. Testes e medidas em educação. Rio de Janeiro: Ed. FGV, 1976.

Maria Euchares de Senna Motta

Fonte: Dicionário biográfico da psicologia no Brasil: Pioneiros / Autor(a): Regina Helena de Freitas Campos (org.) Imago Editora – Rio de Janeiro – 2001 – 461 p.

Mariana Alvim

Mariana Alvim


ALVIM, Mariana (1909-2001)

Nascida no Rio de Janeiro, filha de Álvaro Alvim (médico responsável pela introdução da radiologia no Brasil) e neta de Angelo Agostini (o cartunista brasileiro de maior destaque durante o período imperial, no século XIX), Mariana de Agostini Vilalba Alvim realizou sua formação em Psicologia na Sorbonne/Paris, estudando com Henri Wallon,cuja influência formativa sobre Mariana se fez sentir também na adesão desta ao marxismo (Marwell, 1999). De volta ao Brasil, durante a ditadura varguista, Mariana se gradua também na Faculdade de Serviço Social do Rio de Janeiro.

Mariana Alvim se destaca no processo de autonomização não apenas da Psicologia, como também do Serviço Social ¿ evidenciando uma característica deste período: certa indiferenciação de fronteiras entre profissões emergentes. Outra característica frequente entre tais profissionais é a inserção no serviço público. Mariana Alvim atuou no Serviço de Assistência ao Menor (SAM), órgão criado em 1941 pelo Ministério de Justiça e Negócios Interiores, no Rio de Janeiro, voltado à organização da assistência, tratamento e correção dos menores infratores (Jacó-Vilela e cols., 2012). A atuação em Psicologia no SAM era eminentemente psicométrica, isto é, avaliação do perfil do jovem delinquente, através de testes de inteligência e personalidade. Paralelamente, o Serviço Social era responsável pela investigação social do ambiente social, familiar e escolar da criança/jovem. Possivelmente, a dupla formação de Mariana levou-a a transitar entre estas duas áreas de atuação no SAM.

Ainda na década de 1940, Mariana Alvim tem a oportunidade ¿ através de bolsa de estudos ofertada pelo Departamento de Administração do Serviço Público (DASP) ¿ de fazer aperfeiçoamento em Assistência à Infância nos EUA. Nesta viagem, Mariana realiza treinamentos com Carl Rogers em Chicago, sendo considerada a primeira brasileira a ter contato e trazer ao Brasil as técnicas da terapia não-diretiva (Campos, 2005).

De volta ao país, participa de curso oferecido pelo DASP sobre Orientação e Seleção Profissional, com o psiquiatra espanhol Emílio Mira y López, em 1946. No ano seguinte, Mira y López convida sete alunos deste curso (Mariana, dentre eles) para trabalhar no Instituto de Seleção e Orientação Profissional (ISOP) da Fundação Getúlio Vargas (Souza & Cunha, 2001). O ISOP se notabilizou como um grande centro de formação profissional e divulgação da psicologia aplicada no Brasil. Mariana Alvim atuou com seleção, orientação profissional, além de “orientação vital”: uma modalidade de orientação psicológica voltada fundamentalmente para crianças e jovens (e suas famílias), dotada de um caráter fortemente pedagógico (Degani-Carneiro e Jacó-Vilela, 2012).

Neste período, havia intensos embates em torno do exercício da psicoterapia (especialmente, a de adultos), com fortes pressões da classe médica no sentido de defini-la como função privativa da Medicina. Entretanto, o cuidado terapêutico de crianças e jovens (a orientação vital) era destinado à “infante” Psicologia (Degani-Carneiro, 2010). A teoria rogeriana foi de fundamental importância neste processo como uma alternativa teórica que subsidiava a prática terapêutica destes psicólogos pioneiros, pois a formação em psicanálise no Rio de Janeiro era restrita aos médicos.

Ainda no Rio de Janeiro, Mariana Alvim foi psicóloga da Sociedade Pestalozzi e também chefiou o Serviço Social Psiquiátrico do Instituto de Psiquiatria da Universidade do Brasil (IPUB).

Com a fundação de Brasília em 1960, Mariana se transfere para a nova capital, trabalhando como chefe do Centro de Psicologia Aplicada da Prefeitura do Distrito Federal. Em 1962, a convite do reitor Darcy Ribeiro, criou o Serviço de Seleção e Orientação da Universidade de Brasília (UnB). Embora tenha coordenado a aplicação de testes psicológicos em mais de 1000 alunos para a seleção da primeira turma, além das primeiras seleções de servidores, não permaneceu na UnB, como muitos outros que participaram dos primeiros momentos desta Universidade.

Alvim relata, em entrevista realizada em 1991 (conforme citada por Trzan-Ávila, 2013), sua admiração pelo psicólogo e filósofo marxista francês Henri Wallon (1879-1962) que influenciou sua vida e prática profissional. Assim, o marxismo foi inspirador de reflexões, ideias, bem como de sua militância política. Esta, esteve presente principalmente pela resistência à ditadura, levando a nova direção da UnB a solicitar sua saída da instituição em 1965.

Alvim voltou então ao seu órgão de origem, o Ministério da Justiça, atuando no sistema penitenciário, realizando a avaliação psicológica dos apenados. Seus pareceres possibilitavam o indulto, a liberdade condicional ou, mesmo, a continuidade da situação dos mesmos. Na citada entrevista, Alvim afirma que este trabalho muito a afligia, mas “bem que eu consegui libertar muitos”, deixando claro sua defesa da liberdade e dos direitos humanos. Alvim permaneceu neste serviço até se aposentar, passando a se dedicar à clínica, cursos de formação e de ensino de cursos de testes psicológicos, como PMK e Rorschach, e consultoria em orientação e seleção profissional até o início da década de 1990.

Referências:

Campos, R. F. (2005). A Abordagem Centrada na Pessoa na história da psicologia no Brasil: da psicoterapia à educação, ampliando a clínica. Psicologia da Educação (São Paulo). 21, 11-31.

Degani-Carneiro, F. (2010). A infante ciência e seus infantes: o cuidado com a infância e a autonomização da Psicologia no Brasil nas décadas de 1930-1960. Monografia de graduação em Psicologia. Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro, RJ, Brasil.

Degani-Carneiro, F. & Jacó-Vilela, A. M. (2012). O cuidado com a infância e sua importância para a constituição da Psicologia no Brasil. Revista Interamericana de Psicologia. 46(1), 159-170.

Jacó-Vilela, A. M., Mello, D. S., Gonzaga, A. F., Barbosa, C. F., Santos, D. F., Ferreira, L. S. S., Messias, M. C. N., Lucas, W. S. J. (2009). LBI, SOHM e SOP: desvãos da história da psicologia brasileira. In Associação Brasileira de Psicologia Social (Org.), Anais de Trabalhos Completos do 15º Encontro Nacional da Associação Brasileira de Psicologia Social. Rio de Janeiro.

Marwell, J. (1999). Mariana Agostini de Villalba Alvim. Psicologia: Ciência e Profissão, 19(2), 73.

Souza, J. M. S. & Cunha, R. N. (2001). Alvim, Mariana Agostini de Villalba. In Campos, R. H. F. (Org.), Dicionário Biográfico da Psicologia no Brasil. Rio de Janeiro/Brasília: Imago, CFP.

Trzan-Ávila, A. (2013). Uma história da Abordagem Centrada na Pessoa no Brasil ¿ Rio de Janeiro e São Paulo (1950 – 1970). Dissertação de Mestrado. Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro, RJ, Brasil.

Ana Maria Jacó-Vilela
Filipe Degani-Carneiro
Alexandre Trzan D’Avila

Fonte: Pioneiras da Ciência – CNPQ

Marie Langer

Marie Langer


LANGER, Marie (1910 – 1987)

Psicanalista austríaca de Viena, naturalizada argentina, nascida Marie Glas. Descendente de família da burguesia judaica assimilada, formou-se médica nos anos 30, ingressando, à época, no Partido Comunista Austríaco e no Instituto de Psicanálise de Viena. A ascensão do nazismo incompatibiliza essa dupla inserção: em 1936, abandona a carreira analítica e parte para a Espanha, reunindo-se às Brigadas Internacionais. A derrota da Espanha Republicana e o avanço nazista a levam a exilar-se no Uruguai e, em 1942, a radicar-se em Buenos Aires, onde se torna membro-fundador da Associação Psicanalítica Argentina – APA. Durante duas décadas dedica-se predominantemente à Psicanálise, embora seus livros (Maternidad y sexo, 1951; Psicoterapia de grupo, 1957) e seu papel na criação da Associação Argentina de Psicologia e Psicoterapia de Grupo (1955) indiquem que continua enfatizando os vínculos entre as dimensões subjetiva e sócio-histórica.

Suas primeiras visitas ao Rio de Janeiro, acompanhada de outros membros da APA, ocorrem em 1945 (Congresso de Psicossomática) e 1946 (I Congresso Interamericano de Medicina). A partir de então, brasileiros como Danilo e Marialzira Perestrello e Walderedo Ismael de Oliveira irão realizar formação analítica em Buenos Aires. A militância reassume primeiro plano desde 1969, quando Mimi – como era carinhosamente chamada – filia-se à “Plataforma Internacional”, movimento questionador da ideologia pretensamente neutralista da formação e prática psicanalíticas. Adere então à Federação Argentina de Psiquiatras – FAP, desenvolvendo atividades no campo da saúde mental e, finalmente, renuncia à APA e à International Psychoanalytical Association enquanto membro do grupo “Plataforma Argentino” (1971).

No início dos anos 70, preside a FAP e participa do Centro de Docência e Investigação, que aglutina psiquiatras, psicólogos, pedagogos e assistentes sociais como trabalhadores em saúde mental, oferecendo-lhes uma formação na qual confluem Psicanálise e marxismo. Dirige, na Granica, a coleção “Izquierda Freudiana”, em que são editadas, com textos dos integrantes de “Plataforma” e de “Documento” – outro grupo de analistas rompido com a APA -, as coletâneas Cuestionamos e Cuestionamos 2. Essa última torna pública, pela primeira vez, a denúncia do envolvimento do psicanalista carioca Amílcar Lobo com os organismos de repressão.

Após o breve período de redemocratização argentina (1973-1974), quando se torna professora de Psicologia Médica da Universidade de Buenos Aires, Mimi é obrigada a exilar-se no México, em decorrência de ameaças da Aliança Anticomunista Argentina. Naquele país, colabora com a Universidade Autônoma Metropolitana como professora de Psicologia Clínica, supervisiona o Centro de Integração Juvenil e lidera ações de solidariedade a vítimas do terrorismo estatal. A partir de 1981, integra a equipe que apóia a revolução sandinista, oferecendo assessoria e assistência para a renovação do aparato de saúde mental nicaragüense. Tantas atividades em favor da liberdade a tornaram a primeira psicanalista eleita para o comitê-presidente da Casa de las Américas (1985). Ali, contribuiu para a organização do I Congreso de Psicologia Marxista y Psicoanálisis (Havana, 1986), do qual chegou a participar, embora enferma, vindo a falecer em Buenos Aires, em dezembro de 1987, em decorrência de câncer pulmonar. A seu pedido, foi velada no Movimento Solidário de Saúde Mental de Buenos Aires, organismo de assistência e defesa dos direitos humanos.

Publicações:

LANGER, M. (Org.). Cuestionamos 2. Buenos Aires: Granica, 1973.

LANGER, M. Maternidad y sexo. Buenos Aires: Paidós, 1951.

LANGER, M. Vicisitudes del movimiento psicoanalítico argentino. In: SUÁREZ, A. (Org.). Razón, locura y sociedad. México: Siglo XXI, 1978.

LANGER, M.; BAULEO, A. (Org.). Cuestionamos. Buenos Aires: Granica, 1971.

LANGER, M.; GRINBERG, L.; RODRIGUÉ, E. Psicoterapia de grupo. Buenos Aires: Paidós, 1957.

LANGER, M.; PALACIO, J.; GUINSBERG, E. Memória, história e diálogo psicanalítico. São Paulo: Traço, 1987.

Fontes:

VOLNOVICH, J. C.; WERTHEIN, S. (Comp.). Marie Langer: mujer, psicoanálisis, marxismo. Buenos Aires: Contrapunto, 1989.

Heliana de Barros Conde Rodrigues

Fonte: Dicionário biográfico da psicologia no Brasil: Pioneiros / Autor(a): Regina Helena de Freitas Campos (org.) Imago Editora – Rio de Janeiro – 2001 – 461 p.

Maurício de Medeiros

Maurício de Medeiros


MEDEIROS, Maurício Campos de (1885 – 1966)

Irmão mais moço de Medeiros e Albuquerque. Nascido no Rio de Janeiro. Diplomado em Farmácia em 1903 e médico pela Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro em 1907, foi também professor, ensaísta e político. Freqüentou vários cursos de especialização médica na Europa, um dos quais com Emil Kraepelin. Ao retornar, esteve ligado ao Pedagogium, foi professor de Psicologia na Escola Normal do Distrito Federal e, posteriormente, catedrático de Fisiologia e Patologia Geral na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro e médico-psiquiatra do Hospital dos Alienados. Conhecedor de História Geral e da Medicina, assumiu, em 1946, a direção do Instituto de Psiquiatria da mesma faculdade. Em 1950, foi chefe da delegação brasileira no 1.º Congresso Mundial de Psiquiatria. Participou de campanhas educativas anti-alcoolismo, sendo favorável à adoção da “lei seca” no Brasil. Para Medeiros, o alcoolismo era um dos principais motivadores da criminalidade. Atuando na vida política do país, foi deputado estadual pelo Rio de Janeiro em 1916, deputado federal em 1921, reeleito em 1927 e Ministro da Saúde do governo Juscelino Kubitschek.

Para a docência da Escola Normal, escreveu tese sobre Os supranormais, publicada em 1930 pela Editora da Vida Doméstica, mas, de fato, não defendida, em decorrência de suas atividades políticas. Na Faculdade de Medicina da Universidade do Brasil, hoje Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ, tomou a iniciativa de convidar Danilo Perestrello, docente livre mas de formação psicanalítica, para dar um curso centrado na Psicanálise. Demonstrou sua inclinação para a Psicologia quando, ao término de seu curso médico, decidiu conquistar o título de doutor com uma tese sobre Os métodos da psicologia, apresentada e defendida em 1907.

Tal como ocorreu com Manoel Bomfim, procurou aprimorar sua formação psicológica freqüentando os cursos de George Dumas na Sorbonne. Sob a influência de Dumas, instalou o que ele próprio considerava o segundo laboratório de Psicologia experimental no Brasil (o primeiro teria sido o de Manoel Bomfim) no próprio Hospital Nacional de Alienados. A aparelhagem, segundo afirma Plínio Olinto, teria sido encomendada por Juliano Moreira e com ela teriam sido realizados vários trabalhos de pesquisa.

Ao longo de suas atividades docente e clínica, produziu muitos livros, entre eles Ciência impura, publicado em 1928; A psicoterapia e suas modalidades, publicado em 1929; Segredo conjugal, de 1933; Aspectos da psicologia infantil, editado pela José Olímpio em 1952 e O inconsciente diabólico, publicado em 1964. Este último focaliza uma série significativa de temas em que se revela o quanto Maurício de Medeiros estava atualizado e muito bem informado sobre o campo da Psicologia. Infelizmente, não há referências bibliográficas, embora o próprio texto, vez por outra, contenha indicações de filósofos, como Hegel, e psicanalistas, como Susan Isaacs. Com base na obra dessa autora, apresenta Maurício de Medeiros, no primeiro capítulo, os dez mandamentos da educação infantil. Outro texto importante de Maurício de Medeiros é “Casamento e psiquiatria”, no campo da Medicina Legal, publicado em 1952 em Anhembi.

Publicações:

MEDEIROS, Maurício Campos de. Aspectos da vida infantil. Rio de Janeiro: José Olímpio, 1952.

MEDEIROS, Maurício Campos de. Casamento e psiquiatria. Anhembi, v.22, n.65, abr. 1952.

MEDEIROS, Maurício Campos de. Os métodos da psicologia. 1907. Tese (Doutorado).

MEDEIROS, Maurício Campos de. Os supranormais. Rio de Janeiro: Editora da Vida Doméstica, 1930.

Fontes:

MARTINS, Wilson. História da inteligência brasileira (1933-1960). São Paulo: Edusp, 1977-78.

PENNA, Antonio Gomes. História da psicologia no Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Imago, 1992.

RIBAS, João Carvalhal. Maurício de Medeiros: educação anti-alcoólica. Revista de Psiquiatria Clínica, v.5, n.4, dez. 1976.

Antônio Gomes Penna
André Luís Masiero

Fonte: Dicionário biográfico da psicologia no Brasil: Pioneiros / Autor(a): Regina Helena de Freitas Campos (org.) Imago Editora – Rio de Janeiro – 2001 – 461 p.

Mira y López

Mira y López


MIRA Y LÓPEZ, Emílio (1896 – 1964)

Nasceu em Santiago de Cuba. Em 1898, sua família retornou à Espanha, fixando-se, de início, na Galícia e, a partir de 1902, em Barcelona, onde Mira y López concluiu sua formação escolar básica e a graduação em Medicina (1917). Realizou o doutorado em Madri.

Psiquiatra, seu primeiro contato com a Psicologia ocorreu em 1919, no Instituto de Orientação Profissional da Catalunha, onde foi Chefe do Laboratório de Psicofisiologia, cargo alcançado por concurso. Em 1926 assumiu a direção geral do Instituto. Filiado ao Partido Socialista, exerceu a chefia dos serviços psiquiátricos do exército republicano, durante a Guerra Civil Espanhola. Com a vitória de Francisco Franco (1939), Mira y López abandonou a Espanha, onde jamais retornou. Durante sua permanência nesse país, publicara Teoria y prática del psicoanálisis (1926), Manual de psicologia jurídica (1932) e Manual de psiquiatria (1935).

De 1939 a 1945, Mira y López percorreu vários países, proferindo conferências, ministrando cursos, coordenando ou realizando pesquisas e dirigindo atividades práticas, nos domínios da Psicologia e da Psiquiatria. Demorou-se particularmente na Inglaterra (onde, detentor de uma bolsa de research fellow no Maudsley Hospital, desenvolveu seu projeto PMK), na Argentina e no Uruguai. Casou-se em 1919 com Pilar Campins Garriga, de quem se divorciou durante sua estada no Uruguai. Voltou a casar-se, com Alice Madeleine Galland, desde então sua colaboradora incansável e cuidadosa guardiã de sua memória. Três filhas nasceram da primeira união: Pillar, Emilia e Montserrat. Do segundo casamento nasceram – todos no Brasil – Nuria, Rafael, Emilio Carlos (falecido com poucos meses de vida) e Emilio.

O primeiro contato de Mira y López no Brasil ocorreu em maio de 1945. A convite da Universidade de São Paulo – USP, Instituto de Organização Racional do Trabalho – IDORT, Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial – SENAI e Estrada de Ferro Sorocabana, pronunciou conferências e deu um curso de Psicologia Aplicada ao Trabalho. Em outubro do mesmo ano voltaria ao Brasil, Rio de Janeiro, para se ocupar de um curso que foi um marco na história da Psicologia aplicada no Brasil: o curso do Departamento Administrativo do Serviço Público – DASP, concluído em outubro de 1946. Logo depois, Mira y López foi convocado para assumir a direção do Instituto de Seleção e Orientação Profissional – ISOP (Fundação Getúlio Vargas), em fase de organização no Rio de Janeiro. Ao lado do PMK, o ISOP, a um tempo laboratório, sala de aula, consultório psicológico, gabinete de seleção e orientação, foi a obra mais importante criada por Mira y López, à qual ele deu dimensão acadêmica e projeção internacional. Desenvolveu entre seus colaboradores o hábito de escrever e publicar, criando, para isso, os Arquivos Brasileiros de Psicotécnica – hoje Arquivos Brasileiros de Psicologia. Sua influência cedo ultrapassou os limites do Rio de Janeiro, estendendo-se, praticamente, a todo o Brasil. Ao lado de outros psicólogos, Mira y López participou das lutas pela regulamentação da profissão e pela formação acadêmica regular do psicólogo no Brasil. Escreveu numerosos livros, abrangendo os campos da Psicologia, Psiquiatria e Educação. Faleceu em Petrópolis -RJ.

Publicações:

MIRA Y LÓPEZ, E. Cuatro gigantes del alma. Buenos Aires: El Ateneu, 1954.

MIRA Y LÓPEZ, E. La psiquiatria en la guerra. Buenos Aires: Médico-Quirúrgica, 1944.

MIRA Y LÓPEZ, E. Le Psychodiagnostique Miokinétique. Paris: Centre de Psychologie Appliquée, 1951.

MIRA Y LÓPEZ, E. Manual de orientación profesional. Buenos Aires: Editorial Kapelusz, 1952.

MIRA Y LÓPEZ, E. Psicologia evolutiva da criança e do adolescente. Rio de Janeiro: Editora Científica, 1960.

MIRA Y LÓPEZ, E. Temas actuales de psicologia aplicada. Buenos Aires: Editorial Oberon, 1965.

Fontes:

FREITAS, E. Origens e organização do ISOP. Arquivos Brasileiros de Psicologia Aplicada, v.25, n.1, p.7-16, 1973

Fundação Getúlio Vargas (1964). Arquivos Brasileiros de Psicotécnica. Número especial, em memória de Emílio Mira y López, 16 (2-3).

ROSAS, P. Emílio Mira y López. In: FÁVERO, M. de Lourdes de Albuquerque, BRITTO, Jader de Medeiros. Dicionário de educadores no Brasil: da Colônia aos dias atuais. Rio de Janeiro: UFRJ/ MEC/ INEP, 1999. p. 165-169.

ROSAS, P. Mira y López: 30 anos depois. São Paulo: Vetor – Editora Psicopedagógica, 1995.

Paulo da Silveira Rosas

Fonte: Dicionário biográfico da psicologia no Brasil: Pioneiros / Autor(a): Regina Helena de Freitas Campos (org.) Imago Editora – Rio de Janeiro – 2001 – 461 p.

Nise da Silveira

Nise da Silveira


SILVEIRA, Nise Magalhães da (1905 – 1999)

Nasceu em Maceió – Alagoas. Conhecida nos meios acadêmicos como Nise da Silveira, com 15 anos ingressou na Faculdade de Medicina da Bahia, formando-se em 1926 com a tese Ensaio sobre a criminalidade das mulheres da Bahia. Em 1927 vai para o Rio de Janeiro, onde freqüenta a clínica de neurologia da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, recebendo grande influência de Antônio Austregésilo.

Em 1933 foi aprovada em concurso para médica psiquiatra da antiga Assistência a Psicopatas e Profilaxia. Participou, em 1935, da União Feminina do Brasil, entidade de defesa dos direitos das mulheres vinculada à Aliança Nacional Libertadora. No ano seguinte foi presa como comunista e afastada do serviço público até 1944. Nesse ano iniciou seu trabalho no Hospital Psiquiátrico Pedro II, que havia sido transferido da Praia Vermelha para o Engenho de Dentro. Durante o período em que esteve afastada, novos “tratamentos” haviam surgido: choque elétrico, coma insulínico e lobotomia. Sempre se recusou a utilizar tais métodos pelo fato de se assemelharem à tortura que havia visto na prisão.

A partir dessa oposição à psiquiatria tradicional, assumiu a Seção de Terapêutica Ocupacional e Reabilitação. Do material produzido nos ateliês de pintura e modelagem, fundou, em 20 de maio de 1952, o Museu de Imagens do Inconsciente, centro de tratamento e pesquisa. A partir da série de imagens do inconsciente, percebeu inúmeras tentativas de reordenação, fato que contrariava todos os estudos acerca da produção plástica de internos de hospitais psiquiátricos. O autor que possibilitou uma nova inflexão teórica para esses fatos foi Carl Gustav Jung, de cujos estudos foi a precursora, de maneira sistemática, no Brasil. Em 1954, fundou o Grupo de Estudos C.G. Jung, oficializado em 1969. Nesse período, esteve à frente de inúmeros empreendimentos: em 12 de novembro de 1954, enviou carta a Jung acompanhada de fotos de desenhos circulares e, um mês depois, Aniella Jaffé, secretária e colaboradora de Jung, respondeu-lhe dizendo que o médico suíço havia se interessado muito pelas mandalas pintadas por esquizofrênicos; em 1956 fundou a Casa das Palmeiras, clínica em regime aberto; em 1957 participou do II Congresso Internacional de Psiquiatria em Zurique, iniciando estudos no Instituto C.G. Jung, ao qual retornou em 1958/1961/1962/1964; em 1968 fundou o grupo de estudos do Museu de Imagens do Inconsciente.

Foi aposentada compulsoriamente no dia 14 de julho de 1975, porém, no dia seguinte, compareceu ao hospital dizendo-se a nova estagiária voluntária. Nesse ano organizou as comemorações do Centenário de Jung no Museu de Arte Moderna – RJ. Entre 1983 e 1986 escreveu os textos da trilogia Imagens do inconsciente do cineasta Leon Hirszman, e, no início dos anos 90, liderou um movimento contra a farra do boi em Santa Catarina. Durante sua vida recebeu vários títulos e homenagens, dentre os quais: Doutora Honoris Causa/Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Medalha Chico Mendes/Grupo Tortura Nunca Mais, Membro Fundadora da Société Internationale de Psychopatologie de l’Expression (Paris-França), Prêmio de Melhor Livro de Ensaios/Academia Brasileira de Letras (O mundo das imagens), Membro da Comissão de Honra/Museo Attivo delle Forme Inconsapevoli (Gênova-Itália). No dia 28 de janeiro de 1998 foi indicada pelo Deputado Federal Paulo Delgado para concorrer ao Prêmio Nobel da Paz. Faleceu em 1999 no Rio de Janeiro.

Publicações:

SILVEIRA, Nise da (Org.). A farra do boi: do sacrifício do touro na Antigüidade à farra do boi catarinense. Rio de Janeiro: Numen, 1989.

SILVEIRA, Nise da (Org.). Casa das palmeiras: a emoção de lidar. Rio de Janeiro: Alhambra, 1986.

SILVEIRA, Nise da. 20 anos de terapêutica ocupacional em Engenho de Dentro (1946-1966). Revista Brasileira de Saúde Mental, v. 12, 1966.

SILVEIRA, Nise da. C. G. Jung e a psiquiatria. Revista Brasileira de Saúde Mental, v. 7, 1962/1963.

SILVEIRA, Nise da. Cartas a Spinoza. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1995.

SILVEIRA, Nise da. Considerações teóricas e práticas sobre ocupação terapêutica. Revista Medicina e Cirurgia, n. 194, 1952.

SILVEIRA, Nise da. Editorial: 40 Anos do Museu de Imagens do Inconsciente. Jornal Brasileiro de Psiquiatria, v. 41, n. 4, p. 147, maio1992.

SILVEIRA, Nise da. Ensaio sobre a criminalidade das mulheres na Bahia. [S.l.]: Imprensa Oficial, 1926.

SILVEIRA, Nise da. Gatos: a emoção de lidar. Rio de Janeiro: Léo Christiano, 1998.

SILVEIRA, Nise da. Imagens do inconsciente. Rio de Janeiro: Alhambra, 1981.

SILVEIRA, Nise da. Jung: vida e obra. Rio de Janeiro: José Álvaro, 1968.

SILVEIRA, Nise da. L’expérience d’art spontané chez les schizophrènes dans un service de thérapeutique occupationelle. Revista Brasileira de Saúde Mental, v. 3, dez. 1957. (em colaboração com Pierre Le Gallais)

SILVEIRA, Nise da. Museu de Imagens do Inconsciente. In: PEDROSA, Mário (Org.). Museu de Imagens do Inconsciente. Rio de Janeiro: Funarte/Instituto Nacional de Artes Plásticas, 1980.

SILVEIRA, Nise da. O homem em busca de seu mito. In: LUCCHESI, Marco (Org.). Artaud: a nostalgia do mais. Rio de Janeiro: Alhambra, 1989.

SILVEIRA, Nise da. O mundo das imagens. São Paulo: Ática, 1992.

SILVEIRA, Nise da. Perspectiva da psicologia de C.G. Jung. Revista Tempo Brasileiro, n. 21/22, 1970.

Fontes:

BEZERRA, Élvia. A trinca do Curvelo: Manuel Bandeira, Ribeiro Couto e Nise da Silveira. Rio de Janeiro: Topbooks, 1995.

DELGADO, Paulo. Senhora das mentes e da paz. Jornal de Brasília, Brasília, 28 ago. 1998. Editorial.

GULLAR, Ferreira. Nise da Silveira. Rio de Janeiro: Relume-Dumará, 1996.

HIRSZMAN, Leon. É bom falar. Rio de Janeiro: CCBB, 1995.

MELO, Walter. A constelação dos mitos de morte/renascimento na perspectiva de C.G. Jung. Rio de Janeiro, 2000. Dissertação (Mestrado) – Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro.

PEDROSA, Mário. (Org.). Museu de Imagens do Inconsciente. Rio de Janeiro: Funarte/Instituto Nacional de Artes Plásticas, 1980.

RAMOS, Graciliano. Memórias do cárcere. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1954. 2 v.
Referências bibliográficas

WERNECK, Maria. Sala 4. Rio de Janeiro: CESEC, [s.d.].

Walter Melo

Fonte: Dicionário biográfico da psicologia no Brasil: Pioneiros / Autor(a): Regina Helena de Freitas Campos (org.) Imago Editora – Rio de Janeiro – 2001 – 461 p.

Noemy Rudolfer

Noemy Rudolfer


RUDOLFER, Noemy da Silveira (1902 – 1988)

Paulista de Santa Rita do Viterbo, foi aluna e colega de Lourenço Filho na Escola Normal Padre Anchieta, sendo depois convidada por ele para vários cargos públicos. Em 1927, realiza cursos de formação no Teachers College da Columbia University, quando, segundo relatos de Anita Cabral, teve a oportunidade de conhecer as idéias de Dewey, Kilpatrick e Walker, que posteriormente divulga no Brasil. Divulga também idéias dos seguintes autores ligados à Psicologia Educacional: Thorndike e Gates – estudo comparativo das teorias da aprendizagem com ênfase no conexionismo; Gesell e Bühler – psicologia da criança, psicologia da adolescência; Holingworth e Cole – psicologia das diferenças individuais.

Lourenço Filho a convida em 1931 para chefiar o Serviço de Psicologia Aplicada da Diretoria Geral do Ensino do Estado de São Paulo e, em 1932, para assumir a Cátedra de Psicologia Educacional e o Laboratório de Psicologia Educacional, ambos pertencentes então à Escola Normal Caetano de Campos. O laboratório nesse momento dispunha de 17 funcionários e subdividia-se em quatro seções principais: Medidas mentais, Medida do trabalho escolar, Orientação, Estatística. Durante 10 anos funcionou ativamente e, entre outras coisas, serviu como possibilidade de desenvolvimento de atividades práticas para os alunos estagiários. Em 1935 é nomeada professora de Psicologia do Instituto Caetano de Campos, incorporado à Universidade de São Paulo, onde permanece até 1954, quando é substituída por Arrigo Leonardo Angelini, convidado para ser seu assistente em 1948.

Em 1936 defende sua tese de cátedra, A evolução da psicologia educacional através de um histórico da psicologia moderna. Em 1938 publica um livro cuja primeira edição tem o mesmo título de sua tese. No prefácio, a autora esclarece que teve a intenção de fazer uma revisão da história da Psicologia, incluindo a evolução da Psicologia Educacional, dada a escassa bibliografia existente no período. Considerava também que as inúmeras perspectivas existentes poderiam confundir o aluno de Psicologia. Em l960, na segunda edição, o título é modificado para Introdução à psicologia educacional. A grande modificação introduzida é o capítulo final, onde inclui cinco modernas teorias de aprendizagem: teoria dos estímulos, de E.R.Guthrie; teoria do condicionamento, de Clark Hull; teoria de campo, de Kurt Lewin; teoria organísmica da aprendizagem, de Wheeler; teoria da aprendizagem com um propósito e o comportamento molar de Tolman.

Foi presidente do 1o Congresso Paulista de Psicologia, Neurologia, Psiquiatria, Endocrinologia, Medicina Legal e Criminologia, realizado em São Paulo em julho de 1938. Segundo depoimento de Anita Cabral (1950), Noemy, seguindo os passos de Thorndike, que se aproximou da gestalt, passa a dar mais atenção ao desenvolvimento da personalidade infantil, aos testes projetivos, aproximando-se mais da psicologia clínica e da psicanálise. Os três artigos que publicou na década de 50 no Boletim de Psicologia demonstram essa tendência. Os títulos são: “Os motivos profundos no desenho infantil”; “Psicologia profunda das manifestações artísticas” e “Critérios em uso na moderna psicologia”. Em 1961 é eleita para a primeira diretoria da Sociedade Paulista de Psicoterapia e Psicologia de grupo, dedicando-se à clínica psicanalítica até o ano de sua morte.

Publicações:

RUDOLFER, Noemy da Silveira. A teoria talâmica das emoções de dana e a teoria psicanalítica das emoções de Freud. In: CONGRESSO BRASILEIRO DE PSICANÁLISE, 6., 1977, Rio de Janeiro. Anais… Rio de Janeiro, 1977.

RUDOLFER, Noemy da Silveira. Critérios em uso na moderna psicologia. Boletim de Psicologia, v. 6/7 VII (21,22,23,24) 45-53.set/dez. 55; mar.56

RUDOLFER, Noemy da Silveira. Introdução à psicologia educacional. São Paulo: Ed. Nacional, 1960.

RUDOLFER, Noemy da Silveira. Os motivos profundos no desenho infantil. Boletim de Psicologia. Ano VII e VIII.(25,26,27).17-30. set/dez. 55; mar.56

RUDOLFER, Noemy da Silveira. Psicologia profunda das manifestações artísticas. Boletim de Psicologia, v. 10, n. 35/36, p. 84-94. jan./dez. 1958.

Fontes:

BONOW, I. W. Atualidade de Lourenço Filho na psicologia. Arquivos Brasileiros de Psicologia Aplicada, v.23, n. 3, jul./set. 1971.

CABRAL, A. C. M. A psicologia no Brasil. Boletim de Psicologia da FFCL USP, n.3 , 1950.

CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA. A psicologia no Brasil. Psicologia, Ciência e Profissão, dez. 1979. Edição especial.

GINSBERG, A. Os primeiros congressos brasileiros de psicologia e a participação de psicólogos brasileiros nos congressos internacionais. Boletim de Psicologia, v. 26, n. 69, dez.1975.

PESSOTTI , I . Dados para uma história da psicologia no Brasil. Psicologia, v. 1, n. 1, Maio 1975.

WITTER, G. P. Entrevista com Arrigo Leonardo Angelini. Psicologia escolar e educacional – Abrapee, v.2, n. 1, 1o semestre1998.

WITTER, G. P. Primeiras dissertações/teses em psicologia escolar educacional da Universidade de São Paulo. Psicologia escolar e educacional, v. 2, n. 1, 1o semestre 1998.

Marisa Todescan Dias da Silva Baptista

Fonte: Dicionário biográfico da psicologia no Brasil: Pioneiros / Autor(a): Regina Helena de Freitas Campos (org.) Imago Editora – Rio de Janeiro – 2001 – 461 p.

Padre Benkö

Padre Benkö


BENKÖ, Pe. Antonius (1920 – )

Nome adotado no Brasil por Pe. Antal Benkö, natural de Paks – Hungria. Sua formação religiosa iniciou-se em casa, continuando no Colégio Secundário Pius, de jesuítas, em Pécs, de 1930 a 1938. Em 1941, iniciou licenciatura em Filosofia na Escola Superior dos Jesuítas Húngaros. Em 1944, iniciou licenciatura em Teologia em Szeged, onde ficou até 1946, concluindo-a em 1948 na Pontifícia Universidade Gregoriana, em Roma, onde se ordenou sacerdote em 1947. De 1949 a 1951, cursou licenciatura em Psicologia, concluída com trabalho sobre o teste Szondi, na Universidade Católica de Louvain, onde terminou a licenciatura em Filosofia (1950) e fez doutorado em Psicologia Aplicada, investigando o exame psicológico dos candidatos à vida sacerdotal (1954).

Por sugestão de seus superiores, fixou-se no Brasil em 1954, lecionando, até 1959, na Faculdade de Filosofia Nossa Senhora Medianeira, em Nova Friburgo. Entre 1958 e 1959, fez pós-doutorado na Universidade Loyola (Chicago) e na Universidade de Fordham (Nova York). Em 1957, aceitou convite de Pe. Alonso, Reitor da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro – PUC-RJ, para dirigir o Instituto de Psicologia Aplicada – IPA, com fins de reformulá-lo. Transferiu o curso de Psicologia da Santa Casa para o campus da Gávea, alterou sua estrutura e duração e introduziu a disciplina de Psicanálise, com o nome de Psicologia Profunda, convidando Roberto Azevedo, de São Paulo, para quinzenalmente ministrá-la. Em 1960, criou o Centro de Orientação Psicopedagógica – COPP, origem do atual Serviço de Psicologia Aplicada.

Em 1962, integrou com Carolina Bori, Arrigo Angelini e Pedro Parafita Bessa a comissão responsável pela avaliação dos requerimentos de registro profissional de Psicologia, presidida por Lourenço Filho. Foi vice-presidente (1964) e presidente (1967) da Associação Brasileira de Psicologia Aplicada. De março a outubro de 1966, lecionou na Universidade de Brasília. Em 1966, deixou a direção do IPA, sucedendo-o Aroldo Rodrigues. Em 1967, participou da reforma que introduziu a estrutura departamental e o sistema de créditos na PUC-RJ, e que criou o Mestrado em Psicologia. Em 1968, conquanto prosseguisse lecionando na área de Psicologia, dirigiu o recém-criado Departamento de Teologia. De 1972 a 1975, foi Vice-Reitor Acadêmico da PUC-RJ. De 1974 a 1975 foi Conselheiro Efetivo do I Plenário do CRP/05 – Conselho Regional de Psicologia 5ª Região, eleito vice-presidente pelos conselheiros, tendo Thereza Mettel como presidente.

Foi para a Áustria em 1975, renunciou à cidadania brasileira, adquirida em 1959, para naturalizar-se austríaco (1987) e, desde 1996, leciona na Universidade Católica Pázmány Péter, em Budapeste.

A Revista de Psicologia Normal e Patológica foi o principal veículo de seus escritos no Brasil: as partes I e II de “Valores e limites do Teste de Szondi” (1955), abordando, respectivamente, fundamentação teórica e técnicas, completando com a parte III, sobre a validade do teste (1956); “Um ensaio de exame psicológico dos seminaristas” (1956), investigando a utilização de métodos psicológicos para o exame dos candidatos ao sacerdócio, tema retomado em “Aspectos psicológicos da vocação religiosa e sacerdotal” (1961); “Pseudo-debilidade mental” (1966), relatando um diagnóstico de criança com problemas mentais e propondo um olhar multidisciplinar; publicou também o livro Psicologia da religião (1981).

Publicações:

BENKÖ, Antonius. A orientação educacional e direção da escola secundária. Rio de Janeiro: Ministério da Educação e Cultura, 1961. (Cadernos de Orientação Educacional, 22). Em colaboração.

BENKÖ, Antonius. A orientação educacional no Brasil e a sua relação com a orientação profissional. Boletin Asociación Internacional de Orientación Escolar y Profesional, n. 15, p. 26-28, 1967.

BENKÖ, Antonius. A personalidade do adolescente. Rio de Janeiro: Ministério da Educação e Cultura, 1959. (Cadernos de Orientação Educacional, 18).

BENKÖ, Antonius. Aspectos psicológicos da vocação religiosa e sacerdotal, Separata de: Revista de Psicologia Normal e Patológica, n. 7, p. 769-773, 1961.

BENKÖ, Antonius. Aspectos psico-sociais da religiosidade no Estado da Guanabara. Síntese, n. 3, p. 49-103, 1975.

BENKÖ, Antonius. Como se tem feito e como deverá ser feito o treinamento de psicólogo clínico? Arquivos Brasileiros de Psicologia Aplicada, n. 22, p. 21-35, [197-].

BENKÖ, Antonius. Conveniência e integração da orientação educacional na escola secundária. Rio de Janeiro: Ministério da Educação e Cultura, [195-]. (Cadernos de Orientação Educacional, 11).

BENKÖ, Antonius. Dois aspectos da seleção de seminaristas. In: KÖVECSES, G. (Ed.). Vocações sacerdotais e religiosas. Porto Alegre: Paulinas, 1961.

BENKÖ, Antonius. Estudo de valores: estudo comparativo entre estudantes norte-americanos e brasileiros. Verbum, n. 24, p. 177-189, 1967.

BENKÖ, Antonius. Examen de la motivation. Vie Spirituelle, n. 29, 1954. Supplément.

BENKÖ, Antonius. Formação profissional do psicólogo. Boletim de Psicologia, n. 47/50, p. 75-89, 1964-1965.

BENKÖ, Antonius. Inventário Multifásico de Personalidade. Rio de Janeiro: CEPA, [s.d.].

BENKÖ, Antonius. Prefácio. In: SAALFELD, L. J. Orientação educacional e aconselhamento. Rio de Janeiro: Agir, 1962.

BENKÖ, Antonius. Preparo técnico e condições de estágio. Rio de Janeiro, [195-]. (Cadernos de Orientação Educacional, 6).

BENKÖ, Antonius. Psicologia da religião. São Paulo: Loyola, 1981.

BENKÖ, Antonius. Psicologia moderna e concepção espiritualista do homem. Revista de Psicologia Normal e Patológica, n. 7, p. 627-645, 1961.

BENKÖ, Antonius. Psicologia; Vontade. In: ENCICLOPÉDIA BARSA. Rio de Janeiro: Enciclopédia Britânica do Brasil, 1963.

BENKÖ, Antonius. Um ensaio de exame psicológico dos seminaristas. Revista de Psicologia Normal e Patológica, n. 2, p. 423-453, 1956.

BENKÖ, Antonius. Valores e limites do Teste de Szondi, I. Revista de Psicologia Normal e Patológica, n. 1, p. 302-341, 1955.

BENKÖ, Antonius. Valores e limites do Teste de Szondi, II. Revista de Psicologia Normal e Patológica, n. 1, p. 515-562, 1955.

BENKÖ, Antonius. Valores e limites do Teste de Szondi, III. Revista de Psicologia Normal e Patológica, n. 2, p. 218-250, 1956.

BENKÖ, Antonius; O’DONNELL, M. L.; SILVEIRA NETO, R. Pseudo-debilidade mental. Revista de Psicologia Normal e Patológica, n. 12, p. 405-412, 1966.

Fontes:

LANGENBACH, Miriam; BOSCHI, Sandra Maria Azevedo; LOPES, Arlete Garcia; SILVA, Cristina Gomes; VIEIRA, Marcia Infante. História do I. P. A.: algumas reflexões em psicologia no Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Departamento de Psicologia. Centro de Teologia e Ciências Humanas. Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, 1982. p. 1-54. (Série Estudos – PUC-RJ, O Serviço de Psicologia Aplicada (SPA) da PUC-RJ: Uma prática em debate, 10)

OSUNA, Leandro Vieira. Uma constituição do curso de psicologia da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (1953-1979). fev. 1998. Monografia (Curso de Psicologia) – Curso de Psicologia, Instituto de Psicologia, Centro de Educação e Humanidades, Universidade do Estado do Rio de Janeiro.

Antônio Carlos Cerezzo
Jessé Guimarães da Silva

Fonte: Dicionário biográfico da psicologia no Brasil: Pioneiros / Autor(a): Regina Helena de Freitas Campos (org.) Imago Editora – Rio de Janeiro – 2001 – 461 p.

Raul Briquet

Raul Briquet


BRIQUET, Raul Carlos (1887 – 1953)

Nasceu em Limeira – São Paulo. Médico e professor, foi um dos pioneiros do ensino da Psicologia Social no Brasil. Formado pela Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, em 1911, dedicou-se à Ginecologia e Obstetrícia. Acumulou uma vasta experiência clínica nessa especialidade e, por essa razão, foi nomeado para o exercício do magistério nessa disciplina na Universidade de São Paulo, após a sua fundação em 1934.

O início de sua carreira foi também marcado pela motivação por estudos de Psicologia. Em 1910, escreveu a tese Da psychophysiologia e patologia musicaes, com a qual obteve sua titulação em Medicina. Nessa obra, editada em 1912 sob a forma de brochura, revelou estar familiarizado com teorias da época sobre a psicofisiologia musical e fenômenos normais e patológicos da dismusia e audição cromatizada. Nas últimas páginas de sua tese, na seção intitulada “Proposições”, sugeriu aplicações terapêuticas da música, antecipando-se, portanto, ao desenvolvimento da musicoterapia no País.

Os interesses de Raul Briquet abrangeram outras áreas do conhecimento e de atuação profissional, além da Medicina e da Psicologia. Praticou a Medicina até o final da vida, mas, como nunca descurou de sua formação humanística, reuniu condições intelectuais indispensáveis ao magistério superior na famosa Escola Livre de Sociologia e Política de São Paulo, lecionando nessa instituição disciplinas de Sociologia, Psicologia e Educação. Os melhores livros oriundos dessa experiência são Psicologia social (1935) e História da educação; Evolução do pensamento educacional (1946).

Na Psicologia, não se filiou formalmente a qualquer das correntes teóricas e metodológicas em desenvolvimento na primeira metade do século XX. A sua Psicologia Social é, a rigor, uma continuidade do tema das representações coletivas, desenvolvido na Sociologia de Émile Durkheim (1858-1917). Interessou-se igualmente por outros tópicos da Psicologia, os quais abordou em diversas de suas palestras e conferências. Em algumas dessas oportunidades, Raul Briquet focalizou assuntos como a introdução da Psicanálise no Brasil, a timidez, o vestuário e a Psicologia da Adolescência. Uma coletânea desses textos encontra-se em seu livro Palestras e conferências, publicado em 1944.

Para compreender e avaliar o desempenho científico e pedagógico de Raul Briquet, torna-se necessário considerar o seu período de vida, marcado por três grandes acontecimentos: a Grande Guerra (1914-1918), a II Guerra Mundial (1939- 1945) e a reestruturação política, econômica e institucional promovida pela Revolução de 1930. As reformas introduzidas pelo ministro Gustavo Capanema entre 1934 e 1945 na Educação e na Cultura alteraram substancialmente o sistema de ensino superior no Brasil, favorecendo a licenciatura e os estudos sociais. De outro lado, a participação brasileira nos dois conflitos mundiais fez com que Raul Briquet se preocupasse com o atendimento a feridos em combate. Assim, foi o primeiro a propor o ensino da enfermagem no Brasil, tendo publicado textos técnicos de apoio pedagógico, dos quais se destaca o Manual da socorrrista de guerra (1943).

Raul Briquet foi membro de diversas instituições científicas, dentre as quais o Colégio Brasileiro de Cirurgiões, a Associação Paulista de Medicina, a Sociedade Paulista de História da Medicina, a Sociedad de Obstétricos e Ginecólogos (Buenos Aires), a Sociedade Ginecológica (Montevidéo) e a Academia Paulista de Letras. Faleceu em São Paulo – SP.

Publicações:

BRIQUET, Raul. Da psychophysiologia e patologia musicaes. São Paulo: Typographia Modelo, 1911.

BRIQUET, Raul. História da educação; Evolução do pensamento educacional. São Paulo: Renascença, 1946.

BRIQUET, Raul. Manual da socorrista de guerra. São Paulo: Revista dos Tribunais, 1943.

BRIQUET, Raul. Obstetrícia normal. Rio de Janeiro: Freitas Bastos, 1939.

BRIQUET, Raul. Obstetrícia operatória. São Paulo: Editora Nacional, 1932.

BRIQUET, Raul. Palestras e conferências. São Paulo: Editora Atlas, 1944.

BRIQUET, Raul. Psicologia social. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1935.

Helmuth Krüger

Fonte: Dicionário biográfico da psicologia no Brasil: Pioneiros / Autor(a): Regina Helena de Freitas Campos (org.) Imago Editora – Rio de Janeiro – 2001 – 461 p.

Therezinha Lins

Therezinha Lins


ALBUQUERQUE, Therezinha Lins de (1926 – )

Natural do Receife. Décima-segunda filha de uma família de quinze irmãos. Formada em Pedagogia, em 1949, na primeira turma desse curso na Faculdade de Filosofia de Recife – hoje incorporada à Universidade Federal de Pernambuco – convive nesse período com Anita Paes Barreto, Noêmia Varela, entre outros nomes de relevo na educação de Recife.

Em 1951, muda-se com a família para o Rio de Janeiro. No ano seguinte, é apresentada por Noêmia Varela a Elisa Dias Veloso, diretora do Centro de Orientação Juvenil – COJ, sendo aceita nessa instituição como estagiária, e, posteriormente, técnica de educação. É no COJ que Therezinha entra em contato com a Psicologia, atendendo adolescentes em diagnóstico psicológico e psicoterapia. O COJ, atualmente vinculado à Fiocruz, pertencia ao Departamento Nacional da Criança do Ministério da Saúde, e tinha um funcionamento interdisciplinar, contando com os setores de Psiquiatria, Psicologia e Serviço Social. Era a única clínica do então Distrito Federal a atender gratuitamente adolescentes e suas famílias. Sua finalidade básica era a formação e preparação de pessoal técnico especializado para todo o Brasil.

Em 1955, uma reforma administrativa faz com que Therezinha retorne à sua lotação de origem, o Instituto Nacional de Estudos Pedagógicos – INEP. A pedido do seu diretor, Anísio Teixeira, organiza o Gabinete de Psicologia na Escola Guatemala, posteriormente denominado Serviço de Orientação Psicopedagógica – SOPP, permanecendo aí durante doze anos. Na coordenação do serviço, Therezinha assinala a importância de uma visão global sobre a criança, que não excluísse os contextos da escola, família e comunidade. Sua atividade centra-se no acompanhamento à professora, cujas atitudes são priorizadas, e na dinâmica da relação professor/aluno. O SOPP foi pioneiro em Psicologia Escolar no Estado do Rio de Janeiro, tornando-se um centro de referência e por isso recebendo estagiários de todo o país. Em razão desse trabalho, Therezinha passa a lecionar no curso de especialização em Orientação Educacional da PUC-RJ (1958-1960) e publica três livros, o primeiro deles Acompanhamento psicológico à professora – uma experiência, de 1972. Em 1967, Therezinha deixa o SOPP.

Em 1968, assume a coordenação do COJ, onde permanece até 1977. Em 1972 participa, com Inez Besouchet, Wilson Chebabi e outros, da criação do Centro de Estudos de Antropologia Clínica – CESAC, conveniado com a PUC, de orientação interdisciplinar. Inicia-se nesse centro um curso de especialização em Psicologia Clínica e Therezinha leciona, com Norma Jatobá, a disciplina Psicologia Clínica.

Participa da formação do Conselho Regional de Psicologia, no Rio de Janeiro, sendo sua primeira presidente, no período de 1977 a 1979. Em 1980 é eleita vice-presidente do Conselho Federal de Psicologia. Em 1983 aposenta-se pelo INEP, dividindo-se entre o atendimento clínico em consultório particular e a atividade docente na PUC-RS, onde leciona em curso de especialização. Sua contribuição é reconhecida até os dias de hoje por assinalar a importância da Psicologia, numa perspectiva global e preventiva, no contexto escolar.

Publicações:

ALBUQUERQUE, Therezinha Lins de et al. O estágio supervisionado: estudo preliminar. Arquivos Brasileiros de Psicologia Aplicada, v.22, n.2, p.47-53, 1970.

ALBUQUERQUE, Therezinha Lins de. Acompanhamento psicológico à professora: uma experiência. Petrópolis: Vozes, 1972.

ALBUQUERQUE, Therezinha Lins de. Acompanhamento psicológico à professora: seus rumos. Petrópolis: Vozes, 1976.

ALBUQUERQUE, Therezinha Lins de. O psicólogo clínico. Arquivos Brasileiros de Psicologia Aplicada, v.22, n.2, p.55-63, 1970.

ALBUQUERQUE, Therezinha Lins de. Psicologia e educação: acompanhamento psicológico à professora: uma experiência, seus rumos. Porto Alegre: Artes Médicas, 1986.

SOUZA, Ana Maria Nunes de; ALBUQUERQUE, Therezinha Lins de. Estrutura e Dinâmica de um Serviço de Psicologia Escolar. Arquivos Brasileiros de Psicotécnica, v.14, n.3, p.61-76, 1961.

Fontes:

ALBUQUERQUE, Therezinha Lins de. Entrevista. Rio de Janeiro, 6 ago. 2000. 1 cassete (105 min), estereo. Entrevista concedida a Cristiane Ferreira Esch, Suzana Canez da Cruz Lima e Marcello Santos Rezende.

ALBUQUERQUE, Therezinha Lins de. Entrevista. Rio de Janeiro, 9 jun. 2000. 1 cassete (135 min), estereo. Entrevista concedida a Cristiane Ferreira Esch, Suzana Canez da Cruz Lima e Marcello Santos Rezende.

CENTRO DE ORIENTAÇÃO JUVENIL. Atendimento ao cliente no Centro de Orientação Juvenil. Arquivos Brasileiros de Psicologia Aplicada, v.21, n.4, p.111-127, 1969.

Cristiane Ferreira Esch
Suzana Canez da Cruz Lima
Marcello Santos Rezende

Fonte: Dicionário biográfico da psicologia no Brasil: Pioneiros / Autor(a): Regina Helena de Freitas Campos (org.) Imago Editora – Rio de Janeiro – 2001 – 461 p.

Virgínia Bicudo

Virgínia Bicudo


BICUDO, Virgínia Leone (1915 – )

Natural de São Paulo – SP, foi a primeira candidata a psicanalista não médica no Brasil. Professora normalista, em 1930; educadora sanitária, pelo Instituto de Higiene e Saúde da Universidade de São Paulo, em 1932; bacharel em Ciências Sociais pela Escola de Sociologia e Política, em 1945. Iniciou sua carreira em 1932, como “educadora sanitária” pelo Instituto de Higiene Pública de São Paulo.

Contratada, em 1933, pela diretoria do Serviço de Saúde Escolar, passou a trabalhar na Seção de Higiene Mental Escolar, dirigida por Durval Marcondes, onde exerceu a “função de ‘visitadora psiquiátrica social’, correspondente próxima do que, mais tarde, tornou-se a profissão de psicólogo” (SAGAWA, 1996, p.103). Tornou-se a primeira candidata à Psicanálise na América Latina, iniciando sua análise didática em 1937 com a Dra. Adelheid Lucy Koch (1896-1980); passou a membro efetivo da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo – SBPSP em 1945 e a analista didata em 1955. Foi uma das fundadoras do primeiro núcleo psicanalítico da América Latina, o Grupo Psicanalítico de São Paulo, constituído oficialmente em 5 de junho de 1944, com a Dra. Adelheid Koch, Dr. Durval Bellergarde Marcondes, Dr. Flávio Rodrigues Dias, Dr. Darcy de Mendonça Uchôa e Frank Philips.

Viaja para Londres e ingressa na formação do Instituto de Psicanálise da Sociedade Britânica, de 1955 a 1960; faz análise didática com Frank Philips e supervisão com a Dra. Esther Bick. Participa de várias atividades de um curso para psicólogos na Tavistock Clinic, de 1955 a 1957. Quando volta a São Paulo em 1960, ocupa-se de duas grandes tarefas: formar analistas e difundir a Psicanálise. Assume a presidência da segunda Diretoria do Instituto de Psicanálise em 1962, permanecendo até 1975 através de sucessivas reeleições. Devido à formação não médica, exerceu forte influência na admissão de candidatos não exclusivamente médicos na SBPSP.

O seu empenho na difusão da Psicanálise no Brasil através da grande imprensa está particularmente registrado num livro publicado sob o título Nosso mundo mental, criado a partir de um programa semanal na Rádio Excelsior. Em 1951, passou a ocupar uma seção fixa de página inteira, aos domingos, na Folha da Manhã, sob o mesmo título. Foi Diretora Editorial da Revista Brasileira de Psicanálise, da qual participou em cargos diferentes de 1967 a 1979. Foi professora contratada na cadeira de Psicologia da Faculdade de Filosofia da Universidade de São Paulo; professora Chefe do Departamento de Psicologia da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo e professora na Escola de Sociologia e Política. Outra importante contribuição de Virgínia Bicudo foi o trabalho de introdução à análise de crianças e formação de analistas, juntamente com Lygia Alcântara Amaral, no Instituto de Psicanálise de São Paulo. Pioneira da Psicanálise em São Paulo, foi também uma desbravadora, com idéias arrojadas e politizadas sobre a função social do psicanalista.

Publicações:

BICUDO, V. L. Características da produção psicanalítica da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo. Correio Fepal – Federação Psicanalítica da América Latina, São Paulo, 1987.

BICUDO, V. L. Contribuição para a história do desenvolvimento da Psicanálise em São Paulo. Arquivos de Neuropsiquiatria, São Paulo, v. 6, n. 1, 1948.

BICUDO, V. L. Memória e Fatos. Revista IDE, São Paulo, n.18, 1989.

BICUDO, V. L. Nosso mundo mental. Instituição Brasileira de Difusão Cultural, 1956.

BICUDO, V. L. O Conselho Regional de Psicologia homenageia Durval Marcondes. Alter, Brasília, v. 8, n. 2, 1978.

BICUDO, V. L. O Instituto de Psicanálise: órgão de ensino da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo. Alter, Brasília, v. 6, n. 3, 1976.

Fontes:

Arquivos da Sociedade de Psicanálise de São Paulo. Dados pessoais e currículos dos membros.

BARCELOS, R. Algumas anotações biográficas da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo. São Paulo, 1976. Mimeografado.

BICUDO, Virgínia Leone. Depoimento. São Paulo, 29 set. 1989. 1 cassete (90 min): VHS. Depoimento concedido a Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo para elaboração do Projeto Memória.

CARVALHO, Cíntia Ávila de. Os psiconautas do Atlântico Sul: uma etnografia da psicanálise. Campinas: UNICAMP, 1998.

ENTREVISTA com Virgínia Bicudo. Alter, Brasília, v. 15, n. 1, 1996.

GALVÃO, L. A. P. Notas para a história da psicanálise em São Paulo. Revista Brasileira de Psicanálise, v. 1, n. 1, 1967.

NOSEK, Leopold (Org.). Álbum de família: imagens, fontes e idéias da psicanálise em São Paulo. São Paulo: Casa do Psicólogo, 1994.

OLIVEIRA, Carmen Lúcia Montechi Valladares de. A implantação do movimento psicanalítico na cidade de São Paulo. 2000. Texto debatido em um dos grupos dos Estados Gerais da Psicanálise. Disponível em: <http://www.geocities.com/HotSprings/Villa/3170/CarmenLuciaValadares.htm>. Acesso em: fev. 2001.

ROUDINESCO, Elisabeth, PLON, Michel (Org.). Dicionário de psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998. Título original:Dictionnaire de la Psychanalyse.

SAGAWA, Roberto Yutaka. A construção local da psicanálise. Marília: Ed. Interior/ Psicanálise, 1996.

SAGAWA, Roberto Yutaka. A história da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo. In: NOSEK, Leopold (Org.) Álbum de família: imagens, fontes e idéias da psicanálise em São Paulo. São Paulo: Casa do Psicólogo, 1994.

SAGAWA, Roberto Yutaka. A psicanálise pioneira e os pioneiros da psicanálise em São Paulo. In: FIGUEIRA, Sérvulo A. (Org.). Cultura da psicanálise. São Paulo: Brasiliense, 1985.

SAGAWA, Roberto Yutaka. Os inconscientes no divã da história. 1989. Dissertação (Mestrado) – Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Estadual de Campinas, Campinas.

SAGAWA, Roberto Yutaka. Redescobrir as psicanálises. São Paulo: Lemos, 1992.

SÉRIO, Nádia Maria Ferreira. Reconstruindo Farrapos: a trajetória histórica da SPRJ: instituição e poder. 1998. Tese (Doutorado em História) – Universidade Federal Fluminense, Niterói.

Marina Massi

Fonte: Dicionário biográfico da psicologia no Brasil: Pioneiros / Autor(a): Regina Helena de Freitas Campos (org.) Imago Editora – Rio de Janeiro – 2001 – 461 p.

Waclaw Radecki

Waclaw Radecki


RADECKI, Waclaw (1887 – 1953)

Nasceu na Polônia. Formou-se como violoncelista e maestro de orquestra no Conservatório de Florença. Foi professor catedrático da Universidade de Varsóvia, chefe do laboratório de psicologia experimental da Universidade de Cracóvia e assistente de Claparède na Universidade de Genebra, onde obteve o grau de doutor, realizando pesquisa sobre Les phénomènes psycho-électriques, cujos resultados foram apresentados em monografia editada em 1911.

Tendo emigrado para o Brasil, fixou-se no Paraná, e, em curta visita ao Rio de Janeiro, tomou conhecimento do livro de Manoel Bomfim, Pensar e Dizer, publicado em 1923, e logo se aproximou do autor. Sua presença no Rio atraiu a atenção do neuro-higienista Gustavo Riedel, então diretor da Colônia de Psicopatas do Engenho de Dentro, que o convidou a organizar e dirigir o laboratório de psicologia experimental que já estava sendo montado. Aceito o convite, Radecki passou a residir no próprio local em que se instalara o laboratório e, já em 1924, iniciou suas atividades, formando um dedicado grupo de colaboradores. Sua capacidade de trabalho foi assinalada pelo Dr. Oswaldo N. de Souza Guimarães: “Ele trabalhava como operário em ásperos trabalhos manuais, ora como hábil mecânico, em paciente montagem de delicadas máquinas, ora fabricando, adaptando e aperfeiçoando aparelhos, muitos dos quais de sua invenção” (Annaes, 1928, p. 389).

Inicialmente, integraram o corpo de assistentes do laboratório Halina Radecka, esposa e ex-aluna de Radecki; Nilton Campos, médico-psiquiatra que se entregou ao estudo da psicologia e figurava como segundo assistente na equipe; Gustavo de Rezende, também médico-psiquiatra, voltado para os estudos psicológicos; Lucília Tavares, professora municipal; A. Ubirajara da Rocha, capitão-médico do Serviço de Aviação do Exército, que presidiu a comissão encarregada dos exames psicológicos dos candidatos à Escola de Aviação Militar; Arauld Brêtas e Alberto Moore, primeiros tenentes-médicos do mesmo Serviço e que integravam a citada comissão de exames, e Oswaldo N. de Souza Guimarães, assistente do Ambulatório Rivadávia Corrêa, da Colônia de Psicopatas do Engenho de Dentro. Os médicos militares citados estavam sendo preparados para realizar a primeira seleção de pilotos para a aviação militar em nosso país.

Em decorrência do vínculo com oficiais do Exército, Radecki realizou extenso curso na Escola de Aplicação do Serviço de Saúde do Exército, resumido em 17 fascículos e convertido no Tratado de Psicologia, editado pela Imprensa Militar, em 1928. O tratado, com 443 páginas, contém mais de 300 citações dos mais importantes textos publicados pelos grandes psicólogos que antecederam ou foram contemporâneos do autor, revelando a sua imensa competência.

No período em que permaneceu na direção do laboratório, Radecki ministrou um significativo número de cursos em grandes sociedades científicas. As pesquisas que realizou com seus assistentes constam dos números dos Annaes da Colônia, encontrados na Biblioteca da Academia Nacional de Medicina. Como contribuição teórica, legou-nos o Sistema do Discriminacionismo Afetivo. Em 1932, conseguiu a criação do Instituto de Psicologia no Ministério da Saúde, que substituiu o Laboratório de Psicologia. Faleceu no Uruguai.

Publicações:

RADECKI, Waclaw. Tratado de psicologia. Rio de Janeiro: Imprensa Militar, 1928.

Fontes:

ANNAES da Colônia de Psychopatas do Engenho de Dentro. Rio de Janeiro: [s.n.], 1928-1930.

CAMPOS, Nilton Necrológio de Waclaw Radecki. Boletim do Instituto de Psicologia da Universidade do Brasil, v. 3, n. 3/4, 1953.

CENTOFANTI, Rogério. Radecki e a Psicologia no Brasil. Psicologia: Ciência e Profissão, ano 3, n. 1, 1982.

PENNA, Antonio Gomes. História da psicologia no Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Imago,1992.

Antonio Gomes Penna

Fonte: Dicionário biográfico da psicologia no Brasil: Pioneiros / Autor(a): Regina Helena de Freitas Campos (org.) Imago Editora – Rio de Janeiro – 2001 – 461 p.