Parte III - Formação, ação e profissão

 

 

UMA TRAJETÓRIA PROFISSIONAL

                                                   Miriam Langenbach*

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Há muitos anos afastada da pesquisa em História da Psicologia, o que trazer para esta mesa redonda que faça sentido? Minha contribuição me parece ser este depoimento, que busca fazer  uma reflexão mais ampla sobre alguns aspectos de minha história profissional, incluindo o momento atual, em que tento a conexão psicologia-meio ambiente.

Meu envolvimento com a pesquisa em História da Psicologia se deu nos primeiros anos de minha vida profissional. Neste periodo, dois acontecimentos foram marcantes:

1 - ter sido contratada recém-formada como supervisora  na clínica do SPA (ex-IPA) da PUC/RIO, juntamente com vários outros colegas. Este momento ocorreu junto com um diagnóstico institucional que Suzana Pravaz e Estela Troya, psicólogas argentinas, realizaram - algo inédito -, tentando entender o momento deste Serviço. Este trabalho resultou em que eu levasse uma proposta de reformulação do funcionamento do SPA, a partir das observações e vivências como estagiária. Esta se centrava na necessidade de os casos atendidos serem assumidos por pequenas equipes interdisciplinares de supervisores (um psicólogo, um psiquiatra e uma assistente social) e cinco a seis alunos, possibilitando uma convivência e troca contínuas. Até então,  a interação era estanque e eventual. A supervisão constante era individual, do supervisor psicólogo com o estagiário, e apenas no momento final os três profissionais se reuniam com o aluno para apreciar o diagnóstico do caso.  A proposta  sugeria, ainda, que nestas pequenas equipes fosse introduzida a psicoterapia breve, possibilitando respostas mais satisfatórias à população atendida, assim como a abertura do aprendizado do processo psicoterápico para os alunos da graduação.

Fica visível como o Serviço de Psicologia Aplicada vivia então um momento de abertura, tanto ao refletir sobre sua própria realidade a partir de uma intervenção externa - ousadia que nunca mais aconteceu -   quanto ao incorporar sugestões de uma pessoa recém-formada. Atualmente este tipo de iniciativa seria inviável, na medida em que as pessoas que fizeram o diagnóstico institucional não tinham títulos acadêmicos, e uma pessoa recém-formada, por definição, seria excluída.  Não que não haja caminhos de ingresso na Universidade, mas todos supõem uma socialização longa dentro dela. Ao exigir a priori títulos para que profissionais possam ter voz, a Universidade exclui as pessoas que, por sua proximidade com a vivência do curso ou com a prática, possam trazer contribuições significativas. 

2 - Um segundo fato foi meu ingresso no magistério a partir do movimento de alguns de nós, supervisores da clínica, buscarmos um reconhecimento como docentes, e não apenas como funcionários psicólogos. Conseguimos o que queríamos, mas a conseqüência natural foi a exigência de mestrado.

Neste mesmo período, o desejo de entender a história do IPA desde o início deu origem a um artigo escrito em co-autoria com Sandra Azeredo e  estagiários de nossa mini-equipe na época . A tese de mestrado colocou-se como uma oportunidade de ampliar a  busca histórica para além dos limites da instituição PUC, passando a pensar sobre o início da profissionalização e da formação do psicólogo no Rio de Janeiro.

A história me interessava  na medida em que relativizava os fatos e as percepções do  momento, que perdiam um pouco de sua intensidade , e adquiriam  sabedoria própria,  sentido peculiar. Surgiam aspectos como sermos uma categoria feminina, termos tido que lutar para podermos assumir um papel psicoterapêutico no mercado de trabalho frente aos psiquiatras e principalmente psicanalistas, o auto-didatismo  como marca dos primeiros anos, a importância do psicotécnico e dos testes psicológicos como  abridores de caminhos para a categoria, um certo corporativismo. Estávamos ainda mergulhados nisto, mas já num momento de mudança, e a história resgatava o processo e sua rapidez.

Pensar sobre o início da profissionalização ia dando um contorno ao modo como nos comportamos e definimos  10 anos mais tarde. Ficava visível como, no final dos anos 70/início dos 80, estávamos numa virada, em que assumíamos o papel terapêutico a partir da Universidade. Olhar o passado próximo ajudava a entender o processo e a nos encorajar nesta busca. Já na época ficava patente como o quadro rapidamente se modificava em uma direção de expansão, na qual o  passado mais delimitado e restrito ficava  esquecido.

Tornar-se docente jogou-me na sala de aula, aspecto que queria abordar com mais ênfase nesta apresentação. A sala de aula pedia uma boa capacidade de exposição, criando um clima de fascinação que eu não conseguia a partir de meu feitio mais tímido, inseguro e tenso. A exigência de estudo constante, de leitura intensiva não me atraía especialmente, talvez pelo clima de obrigatoriedade a ele associado. Isto trouxe uma  crise pessoal, um mal-estar  cuja conseqüência natural seria a saída da Universidade. Ao mesmo tempo, era a  inserção na Universidade que me  prometia e possibilitava uma atuação social mais ampla.

Foi um período de muita angústia e sofrimento, vividos bastante solitariamente. Na época pedi licença sem vencimentos por um semestre para tentar clarear esta questão. O que percebi, ao final deste tempo, é que eu não conseguia sair.

Uma reflexão a partir destas vivências foi explicitando a necessidade de uma busca de inserção na Universidade com um estilo próprio, em que eu assumisse meus talentos e dificuldades. A rejeição do modelo que tinha certa erudição como referência e no qual eu não me encaixava  exigia  a busca de outro tipo de caminho.

Exponho esta questão na medida em que penso que a Universidade, especialmente em seus cursos de psicologia, precisa abranger a multiplicidade da contribuição humana e esta anda por caminhos muito diferentes. Quanto mais a diferença tiver espaço, maior a riqueza. Até para passar a seus alunos que suas trajetórias podem ser muito variadas - e que nelas estejam contemplados seus talentos e dificuldades, suas contribuições e estilos específicos, fugindo à submissão e a padronização -, que se possa dizer como Edgar Morin : "Não sou daqueles que têm uma carreira, mas que têm uma vida."

A criatividade me salvou desse impasse. Comecei a pensar - a partir da cadeira Ciência e Profissão que, dada nos semestres iniciais, preconizava uma introdução do aluno à realidade do psicólogo e a seus campos de pesquisa - em uma abordagem mais pessoal e na qual a interação tivesse mais vez. Chamava-me a atenção como no curso a impessoalidade muitas vezes era a tônica, as pessoas em massa - turmas de 60 alunos - assistindo as aulas, sem se conhecerem, sem aprender a conviver e a trabalhar juntos. Será que esta não era uma das principais missões de um curso de psicologia, a humanização, tanto no sentido das pessoas aprenderem a aprofundar suas relações a partir de pontos em comum e de diferenças, assim como uma familiaridade com os âmbitos publico-privado, não necessariamente tão separados? Até que ponto uma característica mais individualista, dura e competitiva, apreendida na academia, seria posteriormente mantida e transmitida nos trabalhos?

O que notava e noto é que o curso de psicologia não se diferencia muito de qualquer outro curso, quando exatamente o grande instrumento de trabalho do profissional é sua própria pessoa. Não que isto dê conta de sua atuação, mas até que ponto esta inclusão, bem trabalhada, não poderia trazer um enriquecimento para sua contribuição profissional?  Na medida em que as turmas mudam incessantemente, não havendo um grupo mais ou menos estável, fica muito difícil este aprendizado de  convivência e de auto-conhecimento.

O que se vê nos cursos é que muitas vezes há uma certa ojeriza a este tipo de abordagem, em que haverá mobilização de aspectos internos.  O processo terapêutico foi definido como sendo o grande referencial de mudanças internas dos alunos, subestimando-se o processo social que  acontece ao longo de um curso, deixando uma socialização especifica.

Comecei a utilizar, em alguns momentos, técnicas de dinâmica de grupo para focalizar o grupo, e meu papel docente, a partir daí, passou a se transformar.

Esta foi, em realidade, sem perceber, minha primeira forma de  aproximação do tema meio ambiente como psicóloga. Eu passava a dar atenção ao primeiro meio ambiente em que os alunos e eu nos encontrávamos, que era a própria sala de aula, focalizando o grupo e seu processo. Na Universidade, a dinâmica do aprendizado grupal, a relação professor-aluno é pouco considerada, mantendo-se assim como uma instância acima de qualquer suspeita. Nunca está em questão a estrutura, para além do formal. 

  O mercado de cursos, formações, terapias e supervisões que foi se estabelecendo a partir dos anos 80 ia reforçando a necessidade da presença de alguém que estrutura, organiza, dá a ultima palavra. Fica em segundo plano a aprendizagem, em cada um, de como manter viva a chama de seus interesses, de movimentar-se por conta própria, de trabalhar com pares e se considerar satisfeito. Em realidade passou-se a estimular um consumo desenfreado de serviços psicológicos, que foi uma forma de o mercado se organizar para ter acesso a uma elite pagante relativamente pequena.

  As lições aprendidas ficam visíveis no clima competitivo que marca o profissional - este é um aspecto - , em que o expor-se é algo evitado a qualquer custo, ficando para as quatro paredes do atendimento psicoterápico; na não existência, entre alunos, de grupos mais significativos que os ajudem na organização de sua vida profissional; na idealização dos que são considerados bem sucedidos; na dificuldade de os alunos terem iniciativas, descobrirem o mundo que os cerca e como se aproximar dele; na ausência de envolvimento dos alunos com ações, seja a nível do próprio espaço universitário - que freqüentam por muitos anos, mas que geralmente desconhecem em sua riqueza - seja envolvendo-se em iniciativas da sociedade civil, que muitas vezes podem ser uma ponte direta com sua vida profissional . De certo modo, todo o esquema em que os alunos entram lhes mostra caminhos estruturados, socializando-os para a passividade, docilidade e submissão. A maioria transita em seu curso como se fosse um espaço mapeado que não os inclui, a não ser como consumidores dos serviços intra ou extra sala de aula.

Estar à frente da cadeira Dinâmica de Grupo foi dando um formato mais sistemático a estes questionamentos decisivos para que eu encontrasse meu lugar na Universidade. Acho importante destacar que meu formato de coordenação não era, nem é, o de uma figura carismática ou popular, mas o de alguém em quem as contradições estavam e estão sempre presentes. Aprender a expô-las e ser compreendida e respeitada, poder assumir dificuldades desidealizando a coordenação, despertando com isso nos alunos, em certos  momentos,  irritação ou  incompreensão, tudo isto fez e faz parte desta caminhada. Esta era, e é, a maneira de ir aprendendo - às vezes muito lentamente - e de ir transmitindo uma visão de mundo que se opunha à geral. 

Comecei a documentar o processo  organizando uma história de cada curso. Cada aula era descrita no que acontecia de importante. Esta atribuição variou, sendo executada às vezes por um monitor, em geral pelos próprios alunos, que se encarregavam de descrever o que tinha acontecido em  aulas por eles coordenadas em duplas, o que acontecia em boa parte do curso. Eu também escrevia ao longo do processo e freqüentemente  expunha meus sentimentos e reflexões em momentos difíceis no grupo. Este documento tomou o formato de um álbum, que incluía ainda aspectos visuais e expressivos com desenhos, fotos, colagens, poemas, etc. realizados livremente. O álbum passava a ser a produção coletiva de uma determinada turma, verdadeira colcha de retalhos, costurada  a partir das vivências relacionadas a certos temas vinculados à dinâmica de grupo, constituindo-se em história do grupo na cadeira. 

Começar a acreditar que este tipo de contribuição tinha sentido e importância foi um processo. Era a busca de uma educação não bancária, e sim transgressora, na acepção de Bel Hooks, em que a sala de aula torna-se o laboratório de transformações profundas vinculadas a  temas amplos e específicos. É uma sala de aula emocionada, viva, em que o corpo esteja presente. Talvez, para vários, assustadora na sua diferença.

Meio ambiente, subjetividade e grupos, como mostra Guattari em As Três Ecologias, são um recorte básico na ecosofia, que envolve uma ecologia mais propriamente ambiental, uma ecologia mental (da subjetividade) e uma ecologia social. Debruçarmo-nos sobre nós mesmos, nossos grupos e nossa  sociedade de consumo, abrindo-nos para uma análise dos  valores presentes, por menos que os caminhos a trilhar estejam claros, coloca-se como desafio.

“Psicologia e meio ambiente” remete a isto: nós como parte do meio ambiente, nos desligando de nosso antropocentrismo, tentando cultivar maior humildade e simplicidade. O homem não sendo o centro, mas parte, se dando conta de sua intervenção onipotente e destrutiva. Trabalhar a sala  onde nós nos movimentamos por anos, todos os dias, tentando veicular os valores de solidariedade - por mais difícil que seja -, de simplicidade, de busca do que é essencial, é uma das formas desta proposta ecosófica se realizar. É a partir do próximo, daquilo que estamos vivendo cotidianamente, que podemos transformar. Mudar a sala de aula universitária não é fácil, pois  ela remete a todo o mundo escolar, que vai se padronizando e endurecendo na medida em que as séries vão se aproximando do ingresso na Universidade. É toda uma estrutura institucional e social que está em questão.

As mudanças são difíceis, porque exigem muito de nós mesmos, uma constante revisão, um balanço de talentos e dificuldades, de impedimentos e possibilidades. Fica necessária ainda uma compreensão mais clara do mundo que nos cerca, com toda sua complexidade, introduzindo nesta compreensão nossa pessoa, de modo que o grande inclua o pequeno. O político passa a ser necessariamente uma dimensão, sendo  a  micropolítica assumida como um espaço de intervenção.

A partir de 1991 comecei a me envolver mais profundamente com a conexão psicologia - meio-ambiente, a partir da cadeira Psicologia Aplicada ao Meio Ambiente. Daí deu-se a criação e coordenação de um projeto pioneiro -  o Programa de Vídeos Ecológicos PUC/Rio -  em que, com um grupo, busquei encaminhar  uma metodologia de sensibilização para o meio ambiente, na qual estão em jogo mudanças de atitudes e comportamentos.  A metodologia se propõe a combinar dinâmicas de grupo, vídeos e ações, buscando uma conexão com o cotidiano. Este caminho colocou-se como uma alternativa fascinante. Era a descoberta da paixão na vida profissional através da descoberta de respostas concretas para uma ação social mais ampla. Foi também o contato com as dificuldades relacionadas a assumir uma coordenação, não mais de alunos, mas de um grupo profissional.

Este projeto foi, ao longo dos sete anos de existência, a partir de um pequeno grupo interdisciplinar, construindo propostas, tentando caminhos que parecem férteis. Cito alguns:

1. Construção de uma rede entre escolas públicas e privadas de um bairro (REGA) - no caso, a Gávea - , sinalizando a necessidade de que estas instituições superem diferenças e trabalhem conjuntamente alternativas para a problemática ambiental;

2. Trabalho com o vídeo de uma maneira mais sensível, escolhendo materiais que sensibilizem, aprofundando os temas a partir de dinâmicas de grupo, sugerindo uma metodologia acessível a professores e lideranças como modalidade de mobilização. Neste sentido, foram realizados dois cursos de formação de Agentes Ecológicos, envolvendo alunos de escolas da Gávea. Neste momento, este curso está sendo oferecido, dentro do Departamento de Psicologia, a  alunos de psicologia, educação, comunicação, geografia e serviço social. A metodologia deu origem ao livro A REDE ECOLÓGICA;

3. Montagem de uma exposição, O PAPEL DE TODOS NÓS, calcada nos 3 Rs (reduzir o consumo, reaproveitar e reciclar), apresentando mais de 120 objetos de reaproveitamento e mostrando à população escolar formas de colaborar. Esta exposição partiu das iniciativas de reaproveitamento de algumas escolas do bairro da Gávea, recebendo, na medida em que circulava, contribuições as mais diversificadas, todas tendo em comum a expressão da criatividade e habilidades a serviço do reaproveitamento. Esta experiência deu origem ao livro O PAPEL DE TODOS NÓS: Alternativas para o meio ambiente;

4. Produção de três vídeos que funcionam como história do projeto e como elementos de sensibilização ( PVE VAI A ESCOLA, O PAPEL DE TODOS NÓS, O VERSO DO PAPEL);

5. Organização de formas concretas  de passar uma nova visão de mundo calcada no não desperdício e na consciência em relação aos materiais, resultando na criação de um Caderno Alternativo (caderno confeccionado a partir do verso de folhas já utilizadas, inclusive a capa) e na estruturação de uma Oficina destes  cadernos, confeccionados por três adolescentes do bairro, em regime de meio expediente.

Todas estas iniciativas  estão se confirmando como canais de ação. E, last but not least, um acervo de material videográfico relacionado a meio ambiente, entendido num sentido amplo, possibilitou um programa com um nível de ação e propostas bastante amplo e atual.

Foi ficando claro ao longo deste tempo que a questão ambiental solicita uma abertura no sentido de não nos encerrarmos nos nossos interesses corporativos, que marcaram nossa história, mas de buscar contribuir somando com outras áreas, tentando a interdisciplinariedade.

Todo este processo representa uma maneira de fazer e ser história, em que a busca da coerência e da autenticidade funcionaram como impulsionadores, querendo compatibilizar o pessoal com o social. Com todas as dificuldades e contradições,  uma grande satisfação se faz presente, que tem a ver com a integração entre a pessoa, a profissional e a cidadã. Partilho esta história acreditando que este tipo de trajetória - em muito atípica - possa vir a ser mais freqüente na Universidade.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

GUATTARI, F. - As três ecologias. Campinas: Ed. Papirus, 1989.

HOOKS, Bel - Teaching to transgress. Londres:  Routledge & Kegan, 1993.

MORIN, E. - Meus demônios. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1994.

PAULA, M., LANGENBACH, M. e PODLUBNY S. - “Mini-equipe: uma experiência em clinica universitária”. Em: Arquivos Brasileiros Psicologia Aplicada, out/dez 1973.

 

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* Professora do Departamento de Psicologia da PUC/RIO,  Coordenadora do Programa de Vídeos Ecológicos da PUC/RIO.



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